Enquanto o mundo se preocupava, em 1929, com uma grande crise mundial, Bertrand Russell, filósofo e matemático, uma das grandes cabeças do século XX, veterano de cinco casamentos, se debruçava sobre uma crise em pequena escala, mas de impressionantes impactos no nosso miserável cotidiano: o casamento.

Este livro lhe valeu, curiosamente, o Prêmio Nobel de literatura. Russell não é de fazer uma análise destinada a dissecar o casamento e analisá-lo sob microscópio. Ele é um apaixonado, essencialmente um coração generoso: “A essencia de um bom casamento é o respeito da personalidade de cada um, combinado com esta profunda intimidade, física, mental e espiritual, que torna o amor sério entre homem e mulher a mais frutífera de todas as experiências humanas. Tal amor, como tudo que é grande e precioso, exige a sua própria moralidade, e frequentemente envolve um sacrifício do que é pequeno em favor do grande; mas tal sacrifício precisa ser voluntário, pois, quando não é, destruirá a própria base do amor e a sua razão de ser” (316).

Naturalmente, Russell escrevia em 1929, quando a sabedoria humana ainda era muito pouco desenvolvida. Para avaliar o progresso que realizamos, basta comparar o texto acima com o que escreve o prêmio “Nobel” de economia Gary S. Becker: “Claramente, todos os homens que preferem Wn às outras mulheres gostariam de casar com ela, as outras coindições permanecendo iguais. No entanto, já que somente um homem pode fazê-lo, um processo de mercado deve decidir com quem ela casa. De forma similar, outras coisas permacendo iguais, todas as mulheres podem querer casar com Mk, mas apenas uma mulher pode fazê-lo. Como as preferencias determinam a formação do equilíbrio dos casamentos, depende crucialmente do lugar do amor, do papel dos preços e das ofertas nos mercados de casamento, incluindo os preços da noiva e valor de dotes nos mecados do casamento, e das propriedades da função produto Z que pode ultrapassar de muito as propriedades das primeiras derivativas.” Seguem páginas de equações destinadas a avaliar cientificamente o casamento. Este monumento de bobagens é de um prêmio dito Nobel (para quem não sabe, o prêmio Nobel de economia não é um prêmio da Fundação Alfred Nobel, e sim um prêmio do Banco da Suécia, detalhe comodamente omitido pelos economistas em geral. Que um idiota do porte do Becker possa receber um prêmio dito Nobel, e escrever as coisas acima só comprova a fraude). Juro que não inventei as bobagens acima, que podem ser encontradas em Social Economics, de Gary S. Becker e Kevin M. Murphy, ano 2000, p. 20).

As visões de Russell são essencialmente centradas na tolerância no bom-senso: Primeiro, acha que deve ser tratado de maneira muito mais livre a relação sem filhos, enquanto a família constituida já envolve responsabilidades radicalmente mais sérias. Segundo, acha que a tolerância deve ser extendida a ambos os sexos. Esta visão aberta, há três quartos de século, lhe valeu uma campanha histérica nos Estados Unidos, onde fora convidado como professor, a ponto de se organizarem movimentos para impedí-lo de ensinar. Como bom matemático e filósofo especializado em lógica, Russell simplesmente desancava os puritanos que fingiam não ver o quanto as políticas que preconisavam se apoiavam na desigualdade e na prostituição.

Russell, como bom aristocrata britânico, reagiu com bom humor à velha moral hipócrita da virtude total, escrevendo páginas de delicioso sarcasmo: “Se devemos, escreve ele, restabelecer a velha moralidade, certas coisas são essenciais; algumas delas já foram feitas, mas a experiência mostra que não são suficientes. A primeira medida essencial é que a educação das meninas seja tal que as faça estúpidas, supersticiosas e ignorantes. Este requisito já foi realisado nas escolas sobre as quais as igrejas têm algum controle. O requisito seguinte é uma censura muito severa referente a quaisquer livros que forneçam informações sobre temas sexuais. Esta condição está sendo também realisada na Inglaterra e na America, já que a censura, sem mudança da lei, está sendo reforçada pelo zelo crescente da polícia. Estas condições, no entanto, como já existem, são claramente insuficientes. A única coisa que será suficiente é remover qualquer oportunidade de jovens mulheres estarem sozinhas com homens: as moças devem ser proibidas de ganhar a sua vida por meio de trabalho fora de casa; nunca lhes será permitido sair a não ser acompanhadas por sua mãe ou uma tia; a lamentável prática de ir a bailes sem vigilância deverá ser severamente eliminada. Deve se tornar ilegal uma mulher não casada de menos de cinquenta anos possuir um automóvel, e talvez fosse sábio sujeitar todas as mulheres não casadas a um exame médico mensal a ser realizado por médicos da polícia, enviando-se para a penitenciária todas as que se descobrir não serem virgens. O uso de contraceptivos deve, naturalmente, ser eradicado, e deverá ser ilegal na conversa com mulheres não casadas por em dúvida o dogma da danação eterna. Estas medidas, se executadas vigorosamente por cem anos ou mais, poderão talvez fazer algo para conter o avanço da imoralidade. Eu acho, no entanto, que para evitar o risco de certos abusos, seria necessário que todos os policiais e médicos fossem castrados. Talvez fosse sábio levar esta política um passo adiante, tendo em vista a depravação inherente ao caráter masculino. Estou inclinado a achar que os moralistas deveriam achar de bom alvitre que todos os homens fossem castrados, com a exceção dos religiosos”. Russell remata com uma nota dizendo que esta última exceção talvez não fosse prudente.(p. 90)

Há 75 anos Russell foi corrido dos Estados Unidos como depravado. Hoje o débil mental da teoria do custo-benefício comercial do casamento mencionado acima recebe um “mini-Nobel”. Como avança a ciência. O casamento, talvez nem tanto.

Não encontrei tradução de Marriage and Morals em português. Existe em espanhol (veja www.livrariacultura.com.br ) ; mas o bom mesmo é aproveitar o suave sarcasmo britânico de Russell no original.