A assimetria do progresso no mundo, atingindo de forma negativa grande parte da população mundial; a disritmia entre o avanço tecnológico e o desenvolvimento político e cultural; o impacto profundamente desigual sobre o emprego, gerando uma nova hierarquia entre empregos de ponta, emprego precário, atividades informais e atividades ilegais – estas três macrotendências convergem para a desigualdade crescente no planeta e entre ricos e pobres em cada país.

As estatísticas neste plano são curiosas. Os que querem mostrar que estamos mal, mas progredindo, incluem de forma diluida os dados da China, e o conjunto do Terceiro Mundo, na média, parece estar indo bem melhor. Os mais realistas separam a China, e mostram a situação trágica na América Latina, na Africa, no Sudeste Asiático, sem falar nos dramas do Oriente Médio e dos países que pertenciam à ex-União Soviética.

Um excelente balanço encontra-se no estudo The Inequality Predicament, elaborado pelo Conselho Econômico e Social da ONU, dez anos depois da cúpula mundial de Copenhague. A apresentação vai muito além do conceito de pobreza, envolvendo amplamente “indicadores não econômicos de desigualdade”.

No plano da desigualdade econômica, o resultado é que “as análises dos padrões de desigualdade sugerem que a desigualdade de renda e consumo entre países se manteve relativamente estável durante os últimos 50 anos”, o que em si é impressionante, dados os imensos avanços nos meios técnicos disponíveis neste período. Houve um avanço na situação da parte mais pobre da população. No entanto, “aprofundando a análise, a imagem que emerge não é tão positiva. Primeiro, a maior parte da melhoria na distribuição de renda no mundo pode ser explicada pelo rápido crescimento econômico da China e, em menor proporção, da India, com boa parte da mudança refletindo os ganhos dos segmentos mais pobres da sociedade às custas dos grupos de renda média nestes dois países. Segundo, a participação dos 10% mais ricos da população mundial aumentou de 51,6% para 53,4% do total da renda mundial. Terceiro, quando tiramos a China e a India da análise, os dados disponíveis mostram um aumento da desigualdade de renda devido ao efeito combinado de disparidades mais elevadas de renda dentro dos países e do efeito distributivo adverso do aumento mais rápido da população nos paíes mais pobres. Quarto, “gap” de renda entre os países mais ricos e os mais pobres aumentou nas décdas recentes”.(44)

No plano da desigualdade econômica interna dos países, os dados da World Income Inequality Database (WIID) mostram que a desigualdade de renda interna dos pa´pises diminuiu durante os anos 1950, 1960 e 1970 na maior paarte das economias desenvolvidas, em desenvolvimento e de planejamento central. Desde os anos 1980, no entanto, este declínio se tornou mais lento ou se estabilizou, e dentro de numerosos países a desigualdade esta crescdndo de novo. É igualmente novo o crescimento da desigualdade em países desenvolvidos: “Um estudo da evolução da desigualdade econômica em nove países da OCDE confirma em geral a visão de que ocorreu um deslocamente significativo na distribuição de renda em todos os países analisados, com a posssível exceção do Canadá”.(48)

A América Latina continua bem representada: “Uma característica que distingue o padrão de desigualdade innterna na América Latina das outras regiões é a participação dos 10% das familias mais ricas na renda total.”…”O fosso mais profundo situa-se no Brasil, onde a renda per caápita dos 10% mais ricos da população é 32 vezes a dos 40% mais pobres. Os níveis mais baixos de desigualdade de renda na região podem ser contrados no Urugay e na Costa rica, países onde as respectivas rendas per cápita dos 10% mais ricos são 8,8 e 12,6 vezes mais elevadas do que as dos 40% mais pobres”.(50)

Onde progressos foram constatados, foi graças a programas de combate à pobreza: “No nível global um progresso considerável foi feito na redução da pobreza durante as últimas duas décadas, em grande parte como resultado de programas e políticas anti-pobreza mais focados”…”Os avanços feitos na China e na India contribuiram substancialmente para uma imagem positiva no nível global. Como estes dois países representam 38% da população mundial, a rápida expansão das suas economias levou a uma redução significativa do número de pessoas que vivem em pobreza absoluta no mundo; entre 1990 e 2000 este número baixou de 1,2 bilhão para 1,1 bilhão. Na China, a proporção de pessoas vivendo com menos de 2 dólares por dia caiou de 88% para 47% entre 1981 e 2001, e o número de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia caiu de 634 milhões para 212 milhões. Na India, a proporção dos que vivem com menos de 2 dólares por dia baixou de 90% para 80%, e o número dos que vivem em extrema pobreza baixou de 382 para 359 milhões”.(51) O impacto positivo principal, portanto, é claramente devido à China.

O nosso interesse principal aqui não está nas cifras e nos respectivos dramas, mas no fato que elas representam claramente a necessidade de intervenções positivas, organizadas, para enfrentar a pobreza. E como a desigualdade constitui o principal problema hoje – jundo com a destruição do meio-ambiente – a ciência econômica tem de concentrar esforços muito mas amplos na compreensão das políticas ativas de combate a à pobreza.

Um segundo ponto, é que não basta olhar para os mecanismos econômicos, pois a desigualdade constitui um processo muito mais amplo. “Talvez ainda mais importante do que os crescentes níveis de pobreza é a emergência e encrustamento (entrenchment) de novos padrões de pobreza em numerosos países. Mudanças dignas de nota incluem uma tendência crescente para a rotação das pessoas para dentro e para fora da pobreza, um aumento da pobreza urbana e a estagnação na pobreza rural, bem como aumento na proporção de trabalhadores informais entre os pobres urbanos e em grande número dos pobres desempregados.(…)De todas as desigualdades dentro e entre nações, a impossibilidade de uma parcela crescente da população do mundo que busca emprego de encontrá-lo constitui talvez o o fato de implicações mais profundas”.(54-55)

Não só precisamos olhar para as dinâmicas sociais de maneira mais ampla, como temos de voltar a dar uma importância central para a organização de processos decisórios participativos: “A agenda do trabalho decente visa enfrentar numerosos desafios que surgem da globalização, inclusive a perda de emprego, a distribuição inequitável dos benefícios, e a desorganização (disruption) que foi causada na vida de tantas pessoas. Responder a estes desafios exigirá a participaão de atores em todos os níveis”.(58)

Assim, a agenda teórica da economia mundial nos leva para a elaboração de propostas políticas pro-ativas, conjugando as duas principais macrotendências do sistema que é a deterioração ambiental e a desigualdade, aliás fortemente articuladas. Os elementos que constituem o processo de globalização – financeirização da economia, hierarquização do trabalho, poder corporativo, concentração do controle mundial da informação e outros – precisam ser trabalhados nesta linha de reconstrução dos eixos críticos de sobrevivência.

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Disponível gratuitamente na intenet sob
http://www.ilo.org/public/english/region/ampro/cinterfor/news/inf_05.htm