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Jean Gadrey, Florence Jany-catrice, Editora Senac www.editorasenacsp.com.br , São Paulo, 2006, 159 p. , 85-7359-492-6.

Finalmente temos a tradução, editada pelo SENAC. Escrevi um pequeno prefácio para esta edição. O comentário abaixo foi feito no anos passado, ainda sobre o original francês.

O PIB não mede o bem-estar. Esta constatação dos autores é hoje de suma importância. Na realidade, o PIB mede o valor dos bens e serviços comerciais produzidos durante um ano. Nada diz sobre a riqueza acumulada numa sociedade, nem se o PIB elevado está sendo atingido às custas da venda do capital natural (o petróleo dos paises produtores, por exemplo), nem sobre a queixa da dona de casa que constata que quem plantou e colheu um pé de alface contribuiu para o PIB do país, enquanto ela que comprou, lavou, picou e serviu a salada não contribuiu com nada. O PIB se interessa apenas pelo equivalente monetário de um grupo restrito de atividades.

O livro que aqui comentamos não busca fazer nenhuma refutação das contas nacionais, contentando-se apenas com a demonstração de que se trata de um aspecto muito restrito das nossas atividades, contabilizadas de maneira razoavelmente competente, apesar das graves deformações estruturais. O problema portanto não é “refutar” os conceitos adotados nos cálculos do PIB (existe imensa bibliografia a respeito) e sim, uma vez constatado o grupo limitado de atividaders que esta metodologia contabiliza, buscar metodologias mais completas. Gadrey e Jany-Catrice realizam um excelente trabalho de revisão das diferentes metodologias disponíveis, dos tipos de indicadores, do potencial que hoje se apresenta para quem quer saber não apenas se o PIB cresceu, mas se estamos vivendo melhor.

Raramente encontrei um livro tão simples e didático na sua estrutura, e tão rico em sugestões práticas. Com as suas 123 páginas, lê-se tranquilamente num fim de semana. E no entanto, encontramos bem ordenados os indicadores objetivos e os subjetivos, os balanços detalhados e os indicadores sintéticos, as avaliações traduzidas em valores monetários e as que se expressam em volumes físicos, os indicadores de produção (out-puts) e de resultados (out-comes), a diferenciação de números que apresentam “o que” cresceu na economia, e os que indicam “quem” se beneficiou do processo.

Retrospectivamente, as mudanças são extremamente fortes. Na era keynesiana, até os anos 1970, a busca dos equilíbrios entre o econômico, o social e o (incipiente na época) ambiental era significativa. Nos anos 1980, com Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra, o social saiu do mapa, tudo foi concentrado nos resultados econômicos e financeiros. Na década de 1990, com o IDH do Pnud, assistimos a uma nova reviravolta, com a constatação de que a economia deve servir o bem-estar humano, e não o contrário. A partir daí desenvolvem-se metodologias que avaliam o trabalho voluntário, o trabalho não remunerado doméstico, a destruição ou proteção do meio ambiente, o sentimento de insegurança gerado nos processos produtivos e assim por diante, a dilapidação dos recursos não renováveis (até o Banco Mundial, veja World Development Indicators 2003). O leque de metodologias, a sua sofisticação e confiabilidade, está se tornando bastante impressionante. Pela primeira vez, começamos a ter instrumentos que podem ser disponibilizados, e que deverão permitir ao cidadão saber se o que está sendo feito corresponde às suas opções econômicas, sociais e ambientais.

Os autores passam em revista o “Barómetro de desigualdade e de pobreza” da França, o “Index of Economic Well being”, o “Index of Sustainable Economic Welfare”, o “Genuine Progress Indicator”, o “Personal Security Index”, o “Index of Social Health”, e outros (além evidentemente do IDH do Pnud), de maneira extremamente organizada, de forma que vemos claramente como as medidas de utilidade empresarial (PIB) evoluem para medidas que avaliam os resultados práticos em termos de bem-estar das populações. Ou seja, pela primeira vez, estamos realmente medindo a utilidade social das nossas atividades. Uma sociedade onde a economia vai bem, mas o povo vai mal e o planeta é dilapidado, é evidentemente uma sociedade sem rumos.

Construir sistemas simples que permitam à população saber se está vivendo melhor ou não, tem imensa importância. Se o que avaliamos é apenas o volume de atividades empresariais, passamos a achar que se o Pib vai bem, tudo vai bem, pois não temos dados sobre a amplitude do que vai menos bem. Na realidade, gerar instrumentos que permitam à população avaliar o “progresso genuino” e a sua qualidade de vida, o que Gadrey chama de “performance societal”, tende a reequilibrar os critérios de decisão na sociedade.

Não tenho dúvida em afirmar que se trata de um eixo essencial de avanços na ciência econômica. Uma população informada pode se tornar cidadã. A população desinformada, ou mal informada, como a que hoje temos, tende a ficar apenas angustiada.

É preciso acrescentar que o livro traz uma bibliografia que é excelente porque enxuta e rigorosamente concentrada na problemática em estudo. Além disso, numerosos artigos e estudos mencionados estão disponíveis online nos sites listados.

Para quem lê francês, trata-se de uma excelente leitura, procure em www.editionsladecouverte.fr . Nos sites mencionados, há numerosas publicações disponíveis em inglês. Não esqueçamos a excelente contribuição de Hazel Henderson no seu “Calvert-Henderson quality of Life Indicators”, centrado no exemplo norte-americano. E no site http://dowbor.org você tem um artigo geral (meu, LD) sobre o assunto, sob “Artigos online”, chamado “Informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável”. Boas leituras.