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John Perkins faz parte de uma geração de autores que denunciam o funcionamento do sistema neo-liberal, mas que não vêm da esquerda: são pessoas cuja revolta surge justamente do fato de entenderem profundamente como o sistema funciona. E entendem profundamente porque a ele pertencem, ou pertenceram. Perkins trabalhava na MAINE, uma empresa de intermediação de contratos internacionais, negociadora do financiamento de grandes obras, e executora de infraestruturas energéticas, com o pefil da ENRON, da BECHTEL e outras semelhantes. Como economista-chefe da empresa, era encarregado de traçar as grandes linhas de investimentos, e de negociar a triangulação entre governos de países do Terceiro Mundo, empreiteiras, e o sistema financeiro norte-americano.

A lógica básica é simples: ele era encarregado de inflar artificialmente as perspectivas de crescimento do PIB do país visitado, e de assegurar o financiamento de grandes obras de infraestruturas pelo Banco Mundial ou outra instituição, com a condição das infraestruturas serem executadas por grandes firmas americanas. Assim o dinheiro não sai dos Estados Unidos, vai diretamente para uma das empresas executoras. Como o crescimento projetado do Pib era artificialmente inflado, o país fica endividado além da sua capacidade de pagamento. Frente à ameaça da moratória, entra então uma segunda rodada de negociações, assegurando o controle por firmas americanas das reservas de petróleo ou outros recursos. Em resumo, Perkins era encarregado de organizar, para as grandes empresas americanas, o aprisionamento dos países na armadilha da dívida, na chamada “debt trap”.

O título, “hit man”, parece coisa de 007. Na realidade, na fase em que era treinado para a sua tarefa, explicaram a Perkins que este nome para a sua tarefa era ideal, pois ninguém acreditaria que tal bobagem existe. No entanto, a atividade é muito real, e permitiu ao jóvem Perkins – jóvem e disposto a distorcer as cifras segundo exigências das empresas que servia – negociar duramente com chefes de Estado dos mais variados países, oferecendo “propostas irrecusáveis”.

O caso da Arábia Saudita é exemplar: “Eu simplesmente punha a minha imaginação para funcionar e escrevia relatórios que apresentavam uma visão de futuro glorioso para o reino. Eu tinha referências aproximadas para as cifras que eu poderia utilizar para estimar coisas como o custo aproximado de produzir um megawatt de energia elétrica, uma milha de estrada, água, esgoto” etc. (…) “Eu sempre tinha em mente os verdadeiros objetivos: maximizar pagamentos a firmas dos EUA, e tornar a Arábia Saudita cada vez mais dependente dos Estados Unidos. Não levei muito tempo entender como os dois objetivos se articulavam; quase todos os novos projetos desenvolvidos exigiriam “upgrading” e serviços de apoio contínuos, e eram tão complexos do ponto de vista técnico que assegurariam que as empresas fornecedoras teriam que mantê-los e e modernizá-los. Na realidade, conforme eu avançava com o meu trabalho, comecei a juntar duas listas para cada um dos projetos que eu visionava: uma para os contratos do tipo “design e construção”, e outra para acordos de serviço e gestão de longo prazo. MAIN, Bechtel, Brown & Root, Halliburton, Stone & Webster, e muitas outras empresas americanas de engenharia e construção teriam lucros generosos para as décadas seguintes”. A expansão das firmas era acompanhada da negociação da sua proteção militar, evidentemente apresentada como segurança do país, convenientemente ameaçado pelas tensões regionais “A sua presença (da indústria da defesa) iria requerer uma outra fase de engenharia e construção, projetos, incluindo aeroportos, sites de mísseis, bases de pessoal militar, e toda a infraestrutura associada com estas instalações”. Um dos chefes do Perkins se referia ao reino da Arábia Saudita como “a vaca que iremos ordenhar até que o sol se ponha sobre a nossa aposentadoria”. (87)

Alguns mecanismos não deixam de nos interessar aqui no Brasil. “Assim, fazemos empréstimos para países como Equador, com o pleno conhecimento que eles nunca poderão pagá-los. Na realidade, nós não queremos que honrem os seus compromissos, já que o não-pagamento é o que nos dá o poder de alavancagem”.(212)

Quem são as empresas interessadas? São as empresas que podem mobilizar a articulação política. Perkins cita um artigo do New York Times de 18 de abril de 2003: “A Bechtel tem laços antigos com o sistema de segurança nacional…Um diretor é George P. Schultz, que foi Secretário de Estado sob o presidente Ronald Reagan, e que serve também como conselheiro senior da Bechtel, foi o presidente da companhia, trabalhando junto com Caspar W.Weinberger, que por sua vez serviu como executivo na empresa de San Francisco antes de ser nomeado Secretário de Defesa. Neste ano, o Presidente Bush nomeou o CEO da Bechtel, Riley P. Bechtel, para o Conselho de Exportação do Presidente”. A CNN amplia a lista: “Várias outras empresas são possíveis competidoras (pelos contratos do Iraq), como participantes na licitação ou como parceiras, incluindo a unidade Kellogg Brown @ Root (KBR) da Halliburton Co. – da qual o Vice Presidente Dick Cheney já foi CEO…Halliburton ganhou um contrato que pode valer US$ 7 bilhões e durar até dois anos, para fazer reparos de emergência na infraestrutura de petróleo do Iraq”. (214)

A vida profissional de Perkins permitiu-lhe articular a pressão das empresas, do governo americano e da comunidade financeira sobre o Panamá (acidente mortal do presidente Omar Torrijos), no Equador (acidente mortal do Presidente Jaime Roldós), na Venezuela (tentativas de golpe por enquanto mal sucedidas), na Indonésia, no Iraq e outros, até que decidiu se retirar da ciranda, e publicar o presente livro.

É interessante fazer o paralelo entre Perkins, o homem do sistema que sai denunciando, e Stiglitz, que larga o Banco Mundial e publica “A globalização e os seus malefícios”, ou ainda David Korten que participa dos programas da USAID na Ásia e sai denunciando o que se faz na realidade (“Quando as corporações regem o mundo”). O sistema é realmente bastante podre, e chamar isto de “livre mercado” é realmente um insulto a Adam Smith.

Quem me recomendou o livro foi Hazel Henderson, e já encaminhamos para a editora Cultrix, que deve lançar a versão em português nos próximos meses. Quem lê inglês pode se divertir com o original, vale a pena.
Ps: as citações acima são uma tradução livre minha, LD