Ignacy Sachs é um velho teimoso, destes que não largam a sua paixão por melhorar as coisas, por ser útil. Os seus trabalhos não são pesadamente acadêmicos, são eminentemente práticos no melhor sentido: nada mais prático do que uma boa teoria. Neste livro pequeno e de fácil leitura, Sachs, profundo conhecedor do Brasil, nos leva diretamente para o nosso problema central: como organizar a economia para que ela inclua a massa da população, em vez de servir apenas a um crescimento elitista. Em outros termos, busca formas organizacionais, setores, soluções tecnológicas, marco jurídico, possibilidades de financiamento – alterações que respondam à questão essencial da ampliação da participação produtiva e decentemente remunerada da massa da população subutilizada ou desempregada no país.

Uma visão com sólidos fundamentos teóricos e orientação pragmática é sempre refrescante. Neste caso, o que a leitura nos traz são respostas. No plano teórico, a articulação da economia com o social, o ambiental, o territorial e o político, nos leva de volta à economia séria, rompendo com as simplificações ridículas do que Sachs chama de “fundamentalistas de mercado”. No plano das aplicações práticas, trata-se de estudar as formas de dinamização do “crescimento induzido pelo emprego”.

O ponto chave em termos de avaliação da tendência atual, é que não podemos mais esperar pela “suposição otimista de que os excedentes de mão-de-obra do setor tradicional seriam gradualmente absorvidos pelo setor moderno em expansão: a história se encarregou de dementir esta visão. Mesmo os países industrializados estão cada vez mais vivenciando um fenômeno maciço de exclusão social. Este resulta de uma combinação de um crescimento lento e que gera relativamente poucos empregos com a incapacidade de traduzir o aumento da produtividade do trablaho num processo eqüânime de redução do tempo do trabalho, de maneira a assegurar o emprego pleno”. (98)

A resposta a esta dinâmica é dupla: “Enquanto persistirem as abismais diferenças sociais e os níveis de exclusão que conhecemos hoje no Brasil, as políticas sociais compensatórias serão indispensáveis, além da urgência em se promover o acesso universal aos serviços sociais de base – educação, saúde, saneamento, moradia. Porém, o emprego e o auto-emprego decentes constituem a melhor maneira de atender ás necessidades sociais”, ao assegurar a inserção no processo produtivo e ao resgatar a aotoestima. (117)

Sachs examina a seguir o potencial da agricultura familiar (77% da ocupação no meio rural e 37% da produção agrícola brasileira), as atividades não-agrícolas das zonas rurais, os empregos e auto-empregos ligados à valorização das bio-massas, a expansão do acesso aos serviços sociais (educação, saúde pública e assistência social), a expansão dos serviços de manutenção dos equipamentos sociais (escolas etc.), a construção de moradias, pequenas obras públicas intensivas em mão de obra e outros setores capazes de transformar o país numa “fábrica de empregos decentes”.

No atual debate sobre rumos de uma economia que tem de ir além do que curiosamente se tem chamado de “estabilidade”, o trabalho de Sachs constitui uma contribuição muito importante. Boa leitura.