A economia se tornou um universo de faz de conta, Alice no País das Maravilhas, ou jogo de sombras de Adeus Minha Concubina, ou ainda o mito das cavernas de Platão. Escolha o leitor a imagem que preferir, o essencial é que o sistema que vemos nas teorias oficiais não coincide com a realidade. Vivemos de ilusões, e na medida em que estas ilusões são conscientemente construidas, vivemos de fraudes.

Quando a Enron fecha, segundo o Business Week, ela tinha 1800 empresas fantasmas para encobrir as suas operações fraudulentas. E era apresentada como empresa modelo em termos de gestão. Em outros termos, é um faz de conta monumental, que atinge empresas simpáticas como Xerox, IBM, General Electric e tantas outras. A grande fraude, é que continuamos a ensinar, a ler e a interpretar os mecanismos econômicos segundo as escolas teóricas que herdamos do passado, esquecendo um detalhe: a economia já funciona de outra forma, segundo outras regras.

No geral, imaginamos que estamos no sistema capitalista, onde manda o proprietáro do capital. Este utiliza o seu capital tentando maximizar o lucro, e para isto deve responder da maneira mais adequada possível à demanda. A demanda é comandada pelo consumidor, que se torna assim o soberano do processo, e o resultado é um tipo de democracia econômica. São as chamadas leis do mercado, que nos levariam à maximização das utilidades sociais.

A realidade é diferente. Quem manda no processo não são os proprietários do capital, os acionistas, mas os seus gestores. O sistema, assim, muda de nome, torna-se “sistema corporativo”. No sistema corporativo, as gigantescas fortunas provêm dos salários fenomenais que os gestores se fixam uns aos outros, entre colegas compreensivos. São salários que ficam frequentemente na ordem de centenas de milhões de dólares. O sistema corporativo é constituido por algumas mega-empresas por cadeia produtiva, o que permite a cartelização e a formação de regras do jogo amigáveis, sempre entre colegas. As corporações trabalham o que chamamos de marca, ou imagem, que leva ao controle do comportamento do consumidor, que passa a comprar em parte valores de uso do produto, e em maior parte o sentimento de importância que lhe dá o fato de usar produtos de marca. O valor da marca permite que se cobre pelo produto várias vezes o seu custo real de produção, gerando um lucro que permite tanto pagar os milhões que ganham os gestores, como pagar o trilhão de dólares que representa hoje a publicidade, formando o consumidor que paga generosamente a marca. A conta fecha, a lógica não é do consumidor, e sim da burocracia corporativa.

“ No mundo real, a firma produtora e a indústria vão longe na fixação de preços e na determinação da demanda, empregando para isto o monopólio, o oligopólio, o design e a diferenciação de produtos, publicidade e outras promoções de venda e de comércio. Isto é reconhecido mesmo na visão econômica ortodoxa. Referir-se ao sistema de mercado como uma alternativa benigna ao capitalismo é um disfarçe pálido e sem sentido da realidade corporativa mais profunda – do poder dos produtores que extendem a sua influência ou mesmo o controle sobre a demanda do consumidor.” (7)

Galbraith é um dos grandes pensadores norte-americanos, escreve de maneira cativante, simples, direta. A desconstrução da fraude que chamamos de “eonomia de mercado” é magistral, num livrinho que tem 60 páginas na edição original em inglês. Galbraith é evidentemente bastante consciente de estar sainda fora da visão da economia propagada pelo “establishment” econômico: “Eu aprendi que para ser verdadeiro e útil, precisamos aceitar uma divergência contínua entre as crenças aceitas – o que eu tenho chamado em outras obras de conhecimento convencional – e a realidade”. (ix) Nesta obra, sem dúvida, Galbraith nos traz de volta à realidade. A meu ver, uma leitura utilíssima para qualquer não economista, e indispensável, evidentemente, para as pessoas da profissão.

(ps: o que eu tenho em mão é a edição original, e as citações constituem uma tradução livre minha – LD)