A História do MST

Sue Branford e Jan Rocha, Casa Amarela, São Paulo , Edição brasileira de Cutting the Wire, 2004, 85-86821 51 9

Duas jornalistas britânicas escreveram um relatório sobre o MST, dando-nos acesso a uma visão que contrasta radicalmente com as bobagens de tom fanático que encontramos nos editoriais do O Estado de São Paulo e outros meios de comunicação de massa. Lembro de uma capa do Isto É, com foto do João Pedro Stédile com o rosto pintado em vermelho, com olhar satânico, retocado para incitar o leitor não a entender, mas a ficar com medo. Assim os conservadores americanos apresentavam os índios antigamente, antes de massacrá-los.

Sue e Jan fizeram a lição de casa, viajando pelo interior do Brasil durante 18 meses, entrevistando, consultando relatórios, checando fontes, aquele tipo de trabalho que vemos sempre com espanto sair das mãos de um outro tipo de jornalismo, pesquisador, sério, ao mesmo tempo comprometido e rigoroso. E até o fato de serem britânicas permite talvez uma isenção que nem sempre conseguimos no quadro das nossas polarizações ideológicas.

O brasileiro em geral não se dá conta a que ponto a realidade do campo brasileiro está sendo fantasticamente deformada. Temos uma imprensa (e academia em boa parte) que sempre silenciou sobre a apropriação fraudulenta de imensas áreas por grilagem – áreas incomparavelmente maiores do que os sem-terra jamais conseguiram – , sobre o assassinato e expulsão de famílias, sobre o poder policialesco dos jagunços que a custa de violência e humiliações abrem espaço para o arame farpado, queimando e expropriando para frequentemente colocar algumas cabeças de boi, para depois sequer utilizar produtivamente a terra ocupada. Ou sobre as cinco empresas transnacionais que hoje praticamente monopolizam a exportação de grãos do país, dando sustento a uma estrutura cada vez mais ultrapassada.

O tamanho do escândalo nenhum editorial encobre. Num país de 850 milhões de hectares, com algumas centenas de milhões de hectares de terra apta para a agricultura, utiliza-se na lavoura (temporária e permanente) algo como 70 milhões de hectares. Os grandes proprietários, cerca de 1% do total, ocupam a metade do solo agrícola do país, mas cultivam algo como 4 a 5% das suas terras. Se a produtividade destas propriedades fosse calculada não pela área plantada, mas pela área que imobilizam, o resultado seria ridículo. Para quem conhece a intensidade do uso da terra de países um pouco mais avançados, o contraste é chocante. Termos 50 milhões de pessoas passando fome num país que tem as nossas disponibildades em terra, água e clima, constitui um atestado de óbito para qualquer declaração de competência da UDR e semelhantes. E demonizar os que querem utilizara a terra parada para cultivar alimentos é francamente patológico. Sem falar que esta política dos latifúndios que expulsou massas rurais do campo gerou grande parte dos dramas explosivos urbanos que vivemos. É melhor termos o cerco de favelas nas cidades do que pequenos agricultores produzindo no campo? Onde está a violência?

Bem, eu ia fazer uma nota sobre o livro de Jan Rocha e Sue Branford, e a indignação veio à tona. As autoras são bastante mais comedidas nos argumentos, mas nos trazem uma visão muito organizada do que é o MST, da sua história, das formas de ocupação da terra, das inovações na área da educação. Neste último plano, são 1200 escolas primárias e secundárias, com 150 mil alunos, amplos programas de treinamento de professores, e inovações pedagógicas que devolvem ao ensino o seu sentido.

É um livro que realmente vale a pena, e não podemos nos dar ao luxo de conhecermos tão pouco do principal movimento social organizado do país, ou de nos contentarmos com as espantosas idiotices que aparecem sobre este assunto nos principais meios de comunicação. Jan e Sue não escondem a sua simpatia, mas trazem tranquilamente argumentos positivos e negativos. Sobretudo, não ficaram escrevendo artigos sentadas na cidade: foram, viajaram, buscaram os recantos mais perdidos até em garupa de moto, mas trouxeram uma coisa cada vez mais rara neste dilúvio de bobagens que nos assola: a imagem real. Boa leitura.