An American Coup and the Roots of Middle East Terror
Stephen Kinzer, Wiley and Sons, New Jersey, 2003, 0-471-26517-9

No ano 2000, 47 anos depois de terem organizado o golpe contra o então primeiro-ministro do Irã, os Estados Unidos reconheciam, através de pronunciamento oficial e cuidadosamente formulado da Secretária de Estado Madeleine Albright, a responsabilidade americana: “Em 1953 os Estados Unidos jogaram um papel significativo na orquestração da derrubada do popular primeiro ministro do Irã, Mohammad Mossadegh,” disse ela. “A administração de Eisenhower acreditava que as suas ações eram justificadas por razões estratégicas. Mas o golpe foi claramente um retrocesso para o desenvolvimento político do Irã. E é fácil ver hoje porque muitos iranianos continuam a ressentir esta intervenção americana nos seus assuntos internos”.

Para a geração atual, a derrubada de um chefe de Estado em país do Terceiro Mundo nos anos 1950 pode parecer assunto de pouco interesse. No entanto, Stephen Kinzer, ao reconstituir o processo com os documentos hoje disponíveis, nos traz uma impressionante introdução aos dramas atuais do Afganistão, do Iraque e de Israel. Kinzer, veterano correspondente do New York Times, fez a lição de casa, pesquisou, entrevistou, levantou dados no Irã e nos outros países interessados, e escreveu um livro-reportagem de leitura apaixonante. Muitas coisas passam a fazer sentido.

No fim da I Guerra Mundial, a Inglaterra estabeleceu um tipo de protetorado no Irã, impondo-lhe o Acordo Anglo-Persa de 1919, “acordo que lhe assegurava controle do exército, do tesouro, do transporte e das comunicações”. E, naturalmente, do petróleo, através da Anglo-Iranian Oil Company. Churchill chamou esta aquisição de “a prize from fairyland beyond our wildest dreams”, um prêmio mágico além dos nossos sonhos mais loucos.

Apoiando-se em Reza Khan, um militar de origem modesta mas violento e ambicioso, que instalaram no poder através de um golpe, os britânicos passaram a dispor de um poder confiável, que depois passaria para o seu filho, o famoso Shah do Irã, a partir de 1946. Dos campos de petróleo de Abadan sairia a maior parte do petróleo da Grã-Bretanha, a preços que deixava os próprios americanos constrangidos. Mossadegh, com doutorado em direito (Suiça), tinha plena consciência do absurdo da situação, e iniciou uma longa batalha para recuperar o controle do petróleo iraniano, para que pudesse servir ao o desenvolvimento do país. Enquanto o Shah “concentrava a sua atenção em carros de esporte, cavalos de corrida e mulheres”, Mossadegh iniciou a longa luta contra o controle britânico sobre o país.

Os salários em Abadan eram de 50 centávos por dia, não havia férias pagas, nem dispensa por doença. A empresa pagava ao Irã 16% do valor do petróleo, mas se recusava a mostrar a contabilidade. Quando os iranianos começaram a pressionar para que pagassem no regime fifty-fifty como os americanos, os britânicos responderam simplesmente que pelo acordo de 1919, o petróleo era deles. Uma missão de avaliação do Departamento de Estado norte-americano concluiu que a Anglo-Iranian era “excepcionalmente lucrativa”, que vendia o seu petróleo entre dez e trinta vezes mais do que o custo da sua produção, e que a arrogância da empresa a tornara “genuinamente odiada no Irã”.

Em 1951, Mossadegh torna-se primeiro ministro, e a concessão anglo-iraniana é revocada. Os britânicos, ainda donos de imensas colônias, consideram que qualquer concessão ao Irã “constituiria um precedente intolerável e encorajaria os nacionalistas por toda parte” (91). Os americanos, seguindo a visão mais realista do presidente Truman, publicam uma declaração pela qual “reconhecem plenamente os direitos soberanos do Irã e simpatizam com o desejo do Irã de uma maior participação nos benefícios do desenvolvimento do petróleo”. Os britânicos sabotam a empresa, bloqueiam Abadan para impedir navios comerciais de embarcarem petróleo iraniano, com o argumento de que o petróleo é dêles, e portanto que estariam transportando mercadoria roubada. Como os iranianos não cedem, começam a organizar um golpe para derrubar o governo Mossadegh.

Os britânicos passam a pressionar os Estados Unidos para que se juntem a eles pela recuperação dos “seus direitos”, agitando a bandeira da ameaça comunista. Convocaram o Conselho de Segurança da ONU para defender os “seus direitos”. Mossadegh compareceu à sessão, e o imenso debate então gerado, bem como a diluição das pretensões britânicas, foram cruciais para dinamizar a luta anticolonialista no Egito, na India e outras regiões do mundo. Ao argumento da soberania, os ingleses opunham a “santitade dos contratos”, fosse qual fosse a forma de obtê-los. A revista Time colocou Mossadegh na capa como “Man of the Year” de 1951, o homem do ano, e não Harry Truman, Dwight Eisenhower ou Winston Churchill. Mas os americanos, se não apoiavam os britânicos, tampouco ajudaram o Irã, e com a apreensão dos navios que vinham comprar petróleo iraniano, o país ficou sem recursos.

Dentro do país, a embaixada britânica entrou em frenéticas atividades para derrubar Mossadegh, e tentaram um golpe apoiando-se no general Zahedi, que tinha sido responsável pela propaganda pro-nazista no irã, durante a segunda guerra mundial. Mossadegh responde rompendo relações diplomáticas. Com a expulsão dos diplomatas britânicos, a rede corrupta dos que tinham vivido à sombra dos interesses britânicos no Irã ficou sem chefia. Neste espaço entrariam os Estados Unidos, vistos até então como isentos. Kermit Roosevelt assumiu a chefia da CIA em Teheran. Nos Estados Unidos, em 1953, Eisenhower, republicano, é eleito presidente, e se apoiará em Dulles para a sua política de operações clandestinas. Os britânicos encontram o apoio que procuravam. Henderson, embaixador americano em Teheran, considera que “o Irã não está pronto para a democracia”, e ajudará a abatê-la.

O próprio golpe é descrito em detalhe por Kinzer. Envolve muito dinheiro – que seria recuperado com o petróleo do país – e uma política sistemática de destabilização através de militares corruptos, de jornais, de gangues manifestando nas ruas, quebrando vidraças e invadindo lojas, aos gritos de “viva Mossadegh” e “viva o comunismo”, enfim, o processo clássico. Clássico também o golpe militar no final do processo, e Mossadegh é afastado, passando o resto dos seus dias (já era idoso) em prisão domiciliara. O Shah volta de Roma de onde esperava o desfecho, para doravante dirigir uma ditadura das mais sanguinárias, mas com o petróleo solidamente em mãos de um consórcio anglo-americano. A Anglo-Iranian Oil Company passa a se chamar Iranian Oil Company, e a parte inglesa muda prudentemente o seu nome para British Petroleum.

De décadas de ditadura do Shah e do ódio gerado, resultaria em 1979 o poder islâmico do Ayatollah Khomeiny. Os Estados Unidos acolhem ostensivamente o Shah fugitivo, e os iranianos se convencem que os americanos voltarão a tentar impor a sua ditadura. Os Estados Unidos ganharam acesso a mais petróleo durante algumas décadas, mas ganharam também o ódio dos iranianos.

O que segue é um encadeamento que Kinzer desenvolve com maestria. O anti-americanismo degenera na tomada dos reféns americanos no Irã. Os Estados Unidos armam Saddam Hussein e o estimulam para uma guerra contra o Irã. A máquina de guerra criada permitirá a Hussein estabelecer a sua ditadura. Os soviéticos, vendo o avanço americano, assumem presença simétrica no vizinho Afganistão. Os americanos passam a financiar os movimentos anti-soviéticos a partir do Paquistão, com logistica militar eficientemente administrada por Osama Bin Laden. A expulsão soviética leva ao poder dos Talebans, e mais ódio anti-americano. Os americanos invadem o Afganistão, e investem nos campos de petróleo ao norte deste, no Turkmenistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e outros. O maior investidor na região é hoje – sem supresas – British Petroleum. E agora, naturalmente, temos o Iraque. Israel, olhos e inteligência dos americanos através do Mossad, se afunda na areia movediça.

A memoria de Mossadegh não foi restaurada no Irã. Patriota e profundamente centrado em ideais democráticos, não teria o apoio nem dos interesses do petróleo, nem dos religiosos chiitas. É interessante constatar como a política da esperteza, dos pequenos golpistas como os irmãos Allen e Foster Dulles, cobra o seu preço, ainda que com atrazo. Depois do sucesso na derrubada de Mossadegh, o governo de Eisenhower, entusiasmado, partiu no ano seguinte para derrubar o governo de Arbenz na Guatemala, e depois tantos outros. Os ganhos de curto prazo compensam a imensa perda de respeitabilidade e de amizade em diversas partes do mundo?

Esta nota de leitura a partir do livro de Kinzer ficou bastante longa, mas era necessário dar um pouco de visão de pano de fundo para um evento que não é conhecido, ou já se encontra esquecido. A grande estatura política e imensa respeitabilidade de Mossadegh continuam a representar um símbolo do que o Médio-Oriente poderia ter sido. É uma história que interessa a todos nós, e Kinzer nos presta sem dúvida um grande serviço. Dá provas de ser um destes grandes jornalistas que os Estados Unidos souberam também produzir.