An Intimate History

Robert E. Sherwood, Enigma Books, New York, 2001, 1-929631-04-9

Robert E. Sherwood – Roosevelt and Hopkins – Enigma Books, 2001, New York, www.enigmabooks.com – Edição brasileira da Nova Fronteira/UNB

Recomendar um livro de 968 páginas, escrito em 1950, pode parecer coisa que nos tempos do dito livro se chamava de “amigo da onça”. Consciente do risco, teimo em recomendar esta leitura. O escitor, Sherwood, fez um belíssimo trabalho, não apenas consultando todas as possíveis fontes, mas baseando-se nos seus arquivos, já que durante anos era ele que escrevia os discursos do presidente.

Além disso, foi amigo de Hopkins, que por sua vez foi o braço direito e esquerdo de Franklin Delano Roosevelt, durante os 12 anos da mais destacada presidência dos Estados Unidos no século XX. Em livro recente que ajudei a coordenar, “Os Estados Unidos: a Supremacia Contestada” (editora Cortez, 2003), escreví que podemos gostar ou não dos Estados Unidos, mas não podemos nos dar ao luxo de ignorar o que alí se passa. Continuo com esta convicção, e a leitura do “Roosevelt and Hopkins” é particularmente esclarecedora, pois mostra de dentro da presidência o imenso desafio que é promover uma política minimamente progressista naquele país. No dia a dia da luta por cada decisão, desfilam os diversos tipos de pressões, os bunkers de poder reacionário, a generosidade dos movimentos democráticos. E da primeira à última página, sente-se o vento de um relato honesto, coisa igualmente rara no nosso mundo polarizado.

Cada um busca mobiliar a sua cabeça de maneira diferente, segundo o tamanho do salão, a ausência ou excesso de mobilia sobre um tema determinado. Para mim, dois temas foram particularmente importantes.

O primeiro, é a guerra que foi o New Deal norte-americano. Na época, e em consequência da grande crise de 1929, os Estados Unidos enfrentavam uma estagnação dramática (hoje no Brasil chamamos isto de “estabilidade”), com 14 milhões de desempregados (hoje no Brasil vamos para mais de 20milhões). Roosevelt pôs de lado os raciocínios econômicos tradicionais sobre o crescimento econômico, e tomou uma opção política: num país onde há muita coisa por fazer, e gente desesperada por ganhar o seu pão e o da sua família, se as empresas não são suficientes, o Estado tem de tomar providências. Roosevelt chamou Hopkins, conseguiu uma verba de emergência de 400 milhões de dólares (da época) no Congresso, e lançou um gigantesco programa de obras de Leste a Oeste do país, construindo estradas vicinais, limpando esgotos, assegurando saneamento básico, regularizando rios, arborizando avenidas. Chegaram a ter 5,5 milhões de pessoas contratadas nas frentes de trabalho, e passaram por este trabalho mais de 8 milhões de pessoas.

O impacto foi gigantesco. Primeiro, porque tirou milhões do desespero. Segundo, porque enriqueceu o país com milhares de obras necessárias que grandes empreiteiras desprezavam por se tratar de pequenas iniciativas descentralizadas, e que os políticos ignoravam porque não se inauguram como viadutos. Terceiro, porque o saneamento, habitação e outras iniciativas reduziram drasticamente os gastos de saúde, com criminalidade, assegurando ainda um conjunto de ganhos de organização social que levaram as comunidades a gerar de maneira autônoma outras iniciativas. Quarto, e sobretudo, os salários distribuidos, ainda que baixos, dinamizaram a demanda por bens populares na base da sociedade, reativando o conjunto da economia, inclusive os setores formais mais avançados. Roosevelt e Hopkins tiraram literalmente o país do buraco.

Muito curioso é acompanhar o processo no livro, que mostra que os economistas eram contra, que os principais jornais falavam em demagogia, que a direita denunciava a iniciativa como “unamerican”, ou não-americana, pois ajudava o pobre através do Estado em vez de deixá-lo ajudar-se a si mesmo através da livre iniciativa. O programa começou em 1933. Nas eleições de 1935/36, apesar do bombardeio da imprensa, Roosevelt foi reeleito de maneira esmagadora: o povinho entendeu que alguém cuidava dele, a imprensa e os políticos tradicionais ficaram falando sozinhos.

(Moral da história? Não tenho dúvida que estamos maduros, no Brasil, para um niudilzinho caboclo. Não copiando, mas aprendendo com o que deu certo. A minha proposta já circula, está nesta página, sob “Artigos Online”, com título de “Articulando Demanda e Emprego…”)

O segundo eixo de aprendizagem neste livro diz respeito à II Guerra Mundial. Como Hopkins foi o articulador principal da costura política e militar entre Roosevelt, Churchill e Stalin, o relato é realmente de quem estava na primeira fila, e Sherwood tem o bom senso de povoar o livro das anotações, telegramas e mensagens dos próprios atores. O que emerge é bastante surpreendente, pois uma guerra que sempre foi vista como resolvida pela intervenção norte-americana, aparece no seu extenso dia-a-dia como essencialmente travada em território soviético. A Europa Ocidental capitulou em poucos meses, a Inglaterra se limitou à guerra nos ares e à defesa do seu território, os Estados Unidos foram o grande provedor material mas têm uma presenca armada limitadíssima até o desembarque na Normandia, em junho de 1944, quando a guerra já estava acabando. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha só combateram os alemães na África do Norte, e chegarão a Roma apenas em 4 de junho de 1944. O teatro de guerra no continente europeu foi essencialmente uma guerra entre a Alemanha e a União Soviética. Com a batalha de Stalingrado, no final de 1942, e as gigantescas perdas alemãs, a expansão alemã se inverte. Mas o desembarque aliado se dará apenas um ano e meio depois.

Neste meio tempo, os americanos preparam a ofensiva contra a expansão japonesa, que só se efetivará depois de ganharem a guerra no plano naval e, consequentemente, aéreo: sem presença naval, o Japão não poderá defender as inúmeras ilhas. Aqui também foram adiando, esperando que a União Soviética abra uma frente também contra o Japão: “Os cálculos de McArthur eram baseados na visão de que a Rússia conteria o grosso das forças japonesas no continente asiático tal como tinha contido os alemães na Europa Oriental” (820) E os britânicos farão uma defesa ineficaz e frequentemente patética do seu império colonial. Cingapura cai sem um tiro.

Em 1943, Roosevelt escreve a Churchill: “Devemos juntar uma força de ataque no Reino Unido o mais rapidamente possível, esta força deverá estar disponivel imediatamente no caso de um colapso da Alemanha”.(p. 629) Os “Aliados” ficam assim no compasso de espera. Churchill , referindo-se às colônias, afirma com tranquilidade: “Não me tornei o Primeiro Ministro do Rei para presidir à liquidação do Império Britânico”.(628)

Frente à sistemática resistência dos britânicos ao desembarque (a “segunda frente” a ser constituida na França) Sherwood comenta: “Enquanto o primeiro ministro (Churchill) invariavelmente dava em princípio o seu apoio entusiastico e eloquente à operação Overlord (desembarque), ele se recusava firmemente a aceitá-la como um fato com data marcada, preferindo acreditar que o poder alemão podeia ser desgastado (“worn down”) por atrito ao ponto de chegar ao colapso, quando então as forças anglo-americanas poderiam realizar uma marcha triunfal do Canal até Berlim enfrentando apenas poucos tiros”. (732) Os americanos terão perdido na guerra 600 mil homens, a União Soviética 20 milhões. A Polônia, a Iugoslávia, a Grécia, que nunca pararam de lutar, perderam milhões. Os filmes que assistimos são todos americanos.

Comprei o livro na Amazon, tipo livro de bolso apesar do tamanho, é barato, é um bom investimento, e garante vários fins de semana…Mas também encontrei o livro em português por acaso numa livraria em Brasilia, no aeroporto.