Tese de Livre Docência defendida por Márcia Leite na Unicamp, em 2002, no prelo na editora Fundação Perseu Abramo. Contato ">

Este livro enfrenta de maneira direta os dilemas de organização social e de relações de produção que colocam as novas dinâmicas produtivas. São incontáveis os livros que anunciam o fim do emprego, ou a era do ócio, a sociedade do conhecimento, ou ainda a sociedade em rede. Um outro conjunto de trabalhos nos traz a visão das transformações dentro da empresa, com qualidade total, redução do leque hierárquico, visões simpáticas como a knowledge organization ou tétricas como a lean and mean organization.

 

O livro de Márcia Leite vem ocupar um relativo vazio entre as grandes visões de transformação social e as análises excessivamente focadas no microcosmo empresarial. Partindo das mudanças sociais, navega pelas transformações dos processos produtivos, e analisa o impacto concreto de reorganização social que os novos processos de trabalho geram, desembocando em formas concretas e inovadoras de regulação social como as que foram desenvolvidas no Grande ABC, na periferia industrial de São Paulo.

O século XX foi o século das grandes simplificações: as alternativas eram a estatização, com planejamento central e uma classe social redentora, ou a privatização, com o vale tudo do mercado e outra classe redentora. O mundo realmente existente está evoluindo por novos caminhos, mais complexos e diversificados.

 

Márcia trilha este caminho de maneira simples e transparente: a técnicas têm de estar a serviço da humanidade; a economia tem de se voltar para as necessidades sociais; a ética precisa ser reintroduzida nas atividades econômicas; a sobrevivência do sistema não é compatível com o vale-tudo do mercado, a sobrevivência do mais apto. Darwin é ótimo, mas nós não somos macacos.

 

Ao analisar o caso concreto da indústria automobilística no Grande ABC, e das formas inovadoras de articulação dos processos produtivos com os mecanismos de regulação social local, através do que tem se chamado de “novas institucionalidades”, ou de “novos arranjos sociais”, a autora aponta para um horizonte onde finalmente estaremos ultrapassando a absurda dicotomia entre os interesses econômicos e os interesses sociais.

 

O trabalho resgata também o imenso legado, em termos de formas inovadoras de articulação de interesses empresariais, sociais e ambientais, que nos deixou Celso Daniel. Neste sentido, o que se traça aqui, é sem dúvida a utopia de uma sociedade que funcione, e que seja mais humana, mas baseada em experiências concretas que constroem novos caminhos.

 

Aguardamos a saída do livro pela Fundação Perseu Abramo, é uma bela leitura..

Autor: Márcia de Paula Leite