Working and Living in the New Economy

Robert B. Reich, Alfred A. Knopf, New York, 2001, 0375725121

Robert Reich é um personagem interessante. Foi ministro do trabalho do governo Clinton, chamado por sua renomada criatividade, e abandonou o posto porque encontrou-se trancado na ausência de espaço criativo que é característica destes postos. Resultou um livro muito interessante, “Trancado no Gabinete” (Locked in the Cabinet), sobre os limites de se desenvolver políticas trabalhistas inovadoras nos Estados Unidos.

Ninguém tem dúvida de que as relações de trabalho estão mudando. “Está se tornando claro para muitos que, como eu tenho discutido, as leis que colocam responsabilidades sobre empregadores, referentes a salários, horários, condições de trabalho, negociação coletiva e outros aspectos do emprego pouco ajudam o número crescente de trabalhadores sob contrato, trabalhadores contingenciais, free-lancers, e-lancers, vendedores por comissão, trabalhadores profissionais e de gestão, e todos os que vendem os seus serviços diretamente na nova economia. Em muitas partes da economia, está se tornando difícil até de determinar quem é o ‘empregador’ e quem é o ‘empregado’”. (The Future of Success,, p. 238).

O volume de livros sobre estas novas tendências é grande. O novo livro que Reich acaba de lançar, The Future of Success¸ continua na linha da análise da problemática das relações trabalho frente à nova economia, mas faz a ponte entre as relações propriamente de trabalho (ganhar a vida, making a living) e as nossas condições de vida (viver a vida, making a life).

O conceito central é o de “sucesso”. Várias gerações viveram com um sentimento de que basta ser sério, dedicado, ou até sacrificado, para que o sucesso seja alcançado. Ou seja, uma pessoa honesta e trabalhadora teria o seu lugar na sociedade. A erosão deste sonho gera um sentimento amplo de insegurança, e mais, de perda de referenciais. De certa forma, não é apenas o problema de ter ou não ter dinheiro para sobreviver, mas das próprias atividades terem ou não terem sentido. A crise é, neste sentido, de civilização.

O The future of sucess, é inteiramente centrado neste dilema: “Estou escrevendo aqui sobre como ganhar a vida e sobre como viver (making a living and making a life) e sobre porque conseguir ambos não somente parece, mas é mais difícil. Montanhas de papel e oceanos de tinta foram gastos para detalhar a exuberância estonteante da economia que emerge. No entanto, quase não há discussão sobre o que isto significa para nós como pessoas, ou sobre as escolhas que estão à nossa frente para os diversos tipos de vidas que queremos levar. As angústias mais profundas desta época de prosperidade concernem à erosão das nossas famílias, à fragmentação das nossas comunidades, e ao desafio de mantermos intacta a nossa integridade Estas angústias fazem parte integral da economia emergente, tanto quanto os seus enormes benefícios: a riqueza, a inovação, as novas oportunidades e escolhas. O meu objetivo aqui é convidar para um debate que é mais amplo do que a recomendação “reduza a velocidade e viva”. Ver esta luta por um melhor equilíbrio entre trabalho pago e o resto da vida somente como uma luta pessoal, travada privadamente, consiste em ignorar as tendências mais amplas que desequilibram a balança. Trata-se também da questão de como o trabalho é – e de como deveria ser – organizado e recompensado. É uma questão de uma sociedade equilibrada”.(The Future of Sucess, p. 4).

Robert Reich escreve muito bem, é extremamente claro, e cita numerosos exemplos concretos, o que facilita a compreensão das tendências. Trata-se, naturalmente, dos Estados Unidos, e as extrapolações para o Brasil podem ser perigosas. No entanto, quando pensamos que apenas um terço dos empregos no Brasil são empregos formais, e que enfrentamos simultaneamente a exclusão gerada pelas novas tecnologias, e a exclusão herdada das relações de trabalho primitivas que ainda dominam boa parte da nossa sociedade, entendemos que as transformações que temos pela frente exigem a sólida compreensão das nossas heranças, mas também das novas tendências.

Numa linguagem direta e sem frescuras, indo direto aos aspectos mais candentes das relações de trabalho, Reich nos oferece uma excelente reflexão tanto sobre o trabalho, como sobre a absurda obsessão de sucesso que polariza as nossas vidas. Quando um ministro, ou ex-ministro, pensa, e comunica bem a visão interna que obteve, vale a pena aproveitar.