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Um ano depois do 11 de setembro 2001, fizemos um balanço, com um grande evento na PUC-SP. Não é possível dividir o mundo em eixo do bem e eixo do mal. O que nos interessa realmente, são os novos rumos dos Estados Unidos. O presente artigo faz parte do volume que estamos preparando, com Octávio Ianni, Hélio Silva e Ricardo Mendes, sobre as novas tendências. Foi publicado como artigo pela revista Economia Global e Gestão  (Global Economics and Management Review) Lisboa, n.1/2003 – rita.c.jorge@iscte.pt (L.Dowbor)

 

EUA: NOVOS RUMOS?

 

Ladislau Dowbor
Setembro 2002

We’re the best, fuck the rest
(Ditado americano)

 

 

No dia 11 de setembro de 2001, encontrava-me na Guatemala, realizando um estudo para as Nações Unidas. Fiquei chocado, como todos, com a tragédia. Mas não havia como escapar de um paralelo estranho: na véspera, realizara várias reuniões com organizações comunitárias locais. As lideranças sociais eram todas impressionantemente jovens. A razão é bem simples: durante os anos anteriores, haviam sido assassinadas 200 mil pessoas, dominantemente dos movimentos sociais, e 35 mil estavam desaparecidas. Massacre sistemático organizado com fortíssimo apoio financeiro e militar dos Estados Unidos, e com aconselhamento de empresas de comercialização de bananas como a United Fruit. O massacre permanece desconhecido do mundo, a não ser pelas pessoas que lêem folhetos de denúncia passados de mão em mão, ou os relatórios técnicos das Nações Unidas. Os massacres da Guatemala começaram quando os Estados Unidos derrubaram o seu presidente legalmente eleito, Jacobo Arbenz. Hoje, o país tem um governo eleito, de extrema direita, pois as milícias para-militares constituídas permanecem organizadas, e as eleições são livres no sentido de liberdade acompanhada.

Não é novidade. Em 1952, a CIA derrubou Mossadegh, dirigente iraniano que estava disposto a fazer o petróleo do seu país servir os interesses do próprio país. Inventaram um Reza Pahlevi, que modernizou o país, particularmente as forças armadas e a equipadíssima polícia secreta Savak. A ocidentalização imposta de cima para baixo levou a um gradual isolamento político do regime, e à volta do país a um tipo de medievalismo religioso, com o Aiatolá Khomeini. Os Estados Unidos então apoiaram, e equiparam, o Irak na sua guerra contra o Irã. Quando o Irak utilizou o gaz mostarda, os Estados Unidos continuaram apoiando. Declarações do Pentágono de agosto de 2002, informam que na época os americanos realmente sabiam, mas como o alvo era militar, consideraram que era adequado.

Quando da guerra do Vietnã, os americanos ficaram irritados com o regime moderado de Norodom Sihanouk, da vizinha Cambodia. Queriam um regime mais à direita. Derrubaram o príncipe, dando inicio a uma série de golpes e contragolpes, com cada nova autoridade massacrando os que podiam ser vinculados à autoridade anterior. Os mortos se contam aos milhões. Os americanos não queriam os massacres, apenas queriam um governo amigo.

Sukarno, na Indonésia, era outro personagem que queria dar prioridade aos interesses internos do país. Foi derrubado com participação ostensiva dos americanos, e substituído por Suharto, um dos ditadores mais violentos e corruptos que já se conheceu, segundo avaliações atuais dos próprios americanos. Os americanos não queriam nem a violência nem a corrupção, mas queriam sim um governo mais amigo.

Não queremos aqui construir o equivalente literário do muro das lamentações de Jerusalém. Mas o fato é que se os Estados Unidos não estendessem sobre Israel o seu manto de proteção financeira e a sua ajuda militar, este não teria o cacife de ir anexando os territórios dos países vizinhos. Aqui, o problema não era ter um governante amigo, mas ter a amizade da imensa e influente colônia judaica norte-americana, que aliás controla boa parte da mídia e, conseqüentemente, da opinião pública. Não se elege um presidente americano sem esta colônia. Tudo tem as suas razões.

Estes poucos exemplos andam esquecidos. Com as políticas atuais de informação, em que cada jornal traz diariamente grandes novidades desconectadas do passado, perde-se a perspectiva. A realidade de ontem parece sumir num grande buraco negro, tragada pelas novidades do dia. Nesta curiosa deformação, o tempo parece perder a sua profundidade, e a história o seu sentido.

Mas vale a pena lembrar, ainda que rapidamente: a perseguição ao ANC, hoje no poder na África do Sul, e anteriormente qualificado de terrorista; a criação, de cabo a rabo, da chamada Frente Roberto Holden, e o apoio militar às forças do apartheid da Unita, em Angola, gerando uma guerra que só terminou em 2001; o apoio ao ditador Somoza, da Nicarágua, e a organização da guerra aos sandinistas, gerando o caos atual; o assassinato de Patrice Lumumba, e o apoio a Moise Tschombe e a Mobutu, os sucessivos ditadores do Congo, outros gigantes da repressão e da corrupção; a organização do golpe militar que derrubou Salvador Allende, presidente eleito do Chile, curiosamente também num 11 de setembro; o apoio à ditadura militar da Argentina, cujas seqüelas sentimos ainda hoje, pela destruição das estruturas organizadas da sociedade civil; o apoio ao golpe militar do Brasil…A lista é longa, e cobre todos o século XX. O apoio à tentativa de golpe contra o presidente eleito e re-eleito da Venezuela é de 2002. A intervenção na Colômbia está em curso, a intevenção no Irak está começando.

Um dos livros mais importantes que se escreveu sobre os Etados Unidos é o estudo de Gunnar Myrdal, The American Dilemma, ainda dos anos 1940. Paul Johnson, um historiador americano solidamente conservador, refere-se a Myrdal quase com ódio. Na época, Myrdal sugeriu que se adotassem medidas afirmativas para se reduzir o racismo e promover os negros nos Estados Unidos. O imenso e patriótico tratado de Johnson começa com uma dedicatória: “Este livro é dedicado ao povo da América – forte, assumido, intenso nas suas convicções, por vezes cabeça-dura mas sempre generoso e bravo, com uma paixão pela justiça que nenhum país jamais igualou”.1 A irritação de Johnson é compreensível: a mensagem central de Myrdal é uma pergunta: como é que cabe, na cabeça do americano, simultaneamente o seu credo referente à liberdade, democracia, respeito ao indivíduo etc., e o racismo, a discriminação, o tratamento truculento dos pobres?

Paulo Freire encontrou um dia nos Estados Unidos uma velhinha sentada na calçada: curioso e solidário como sempre, perguntou-lhe se era americana. “Não, respondeu a velhinha, sou pobre”. Não há como escapar de uma conclusão simples, mas de importantes implicações: o poder nos Estados Unidos está assentado numa imensa base de hipocrisia.

Terrorismo e petróleo

Acho que apagar o passado se torna parte de uma estratégia. Apagando o passado, tira-se o sentido do presente, borra-se a visão do futuro, e a vontade de ação política. O Tratado de Versalhes, finalizando a I Guerra Mundial, não é bem uma novidade. Na época, os países do Oriente Médio foram divididos em regiões que teriam suficiente “maturidade” para serem independentes, e os outros se tornariam protetorados. Há uma rigorosa coincidência entre os que precisariam tornar-se protetorados, e as reservas de petróleo. Com o fim da II Guerra Mundial, já não seria possível manter colônias ou protetorados. Instala-se em compensação um sólido bastião do Ocidente, o Estado de Israel, fonte de permanentes conflitos e discórdias no mundo árabe.

Manter uma guerra entre Irak e Irã seria visto como ótimo negócio, e o Irak seria generosamente apoiado pelos Estados Unidos, Sadddam Hussein inclusive. A democracia nunca foi o forte dos países islâmicos, e muito menos da Turquia, tão apoiada pelos países ricos, ou a Arábia Saudita. No entanto, Hussein aparece como o único bandido. O Iraq tem a segunda base de reservas de petróleo no mundo. Não se admite que este país não seja um país amigo.

A família Bush, como se sabe, tem as empresas de petróleo como principal base de apoio político. O Afeganistão não tem grande importância no mundo. No entanto, a expansão militar norte-americana na região continua de forma acelerada. Sob o pretexto de combater o terrorismo, instalaram-se bases nos países limítrofes: no Kirguistão, no Uzbekistão, Azerbaijão e outras ex-repúblicas soviéticas. Ao sul, está o Afeganistão. Ao norte, as grandes reservas de petróleo da região do mar Caspio, que Hitler tentara atingir, travando então a decisiva batalha de Stalingrad. O Business Week de 27 de Maio apresenta, como artigo de capa, o imenso avanço que significa a entrada na região para os interesses petroleiros dos Estados Unidos: sob o título “A próxima fronteira do petróleo”, o estudo comenta “como os soldados, homens do petróleo e diplomatas americanos estão abrindo uma nova esfera de influência nas fronteiras da Rússia”.2 “As armas,” explica o artigo, “vão evidentemente servir também para proteger o petróleo – um petróleo que Washington espera que diminua a dependência do Ocidente do Golfo Pérsico, e também para tirar as nações do Cáucaso e da Ásia Central da sua rude pobreza”. O fim do parágrafo é quase poético.

Os grandes grupos que agem junto com os americanos na região incluem ChevronTexaco, Exxon Mobil, BP, PLC e Halliburton. O maior investidor é British Petroleum, o que explica em boa parte o entusiasmo de Blair de fazer os militares ingleses lutar contra Bin Laden e sobretudo acompanhar as entradas norte-americanas na região. O dossiê publicado pelo Business Week mostra, país por país, os interesses militares e os interesses energéticos.

Soa familiar? Enquanto as investidas continuam na área do petróleo, a mídia internacional nos bombardeia com imagens dos sucessivos personagens que devemos odiar: Khomeiny, Bin Laden, Saddam Hussein, estas ameaças ao mundo. O que faríamos sem a proteção norte-americana? O general Shephard, em entrevista na CNN nos Estados Unidos, deixa tudo claro: “We are the world peace keepers, like it or not”. Somos os guardiães da paz mundial, gostem ou não…3

O pacificador global

A mania de um povo se considerar superior aos outros é uma praga. Os alemães queriam ser “über alles”, superiores a todos. Os israelenses continuam a se considerar o povo eleito. Os americanos conseguiram se convencer que a dominação mundial faz parte do seu “destino manifesto”. E não adianta historiadores mostrarem que os eleitos terminam democraticamente por voltar a ser apenas humanos. A tentação, aparentemente, é grande demais.

A realidade é que, em termos de geopolítica, os Estados Unidos se convenceram de que têm pela frente uma janela de tempo particularmente favorável, uma oportunidade única. Os Estados Unidos, com a derrocada da União Soviética, terminaram por ser a única potência militar de alcance planetário. A segunda potência econômica mundial, a Alemanha, não tem exército, como resultado da II Guerra Mundial. A terceira potência econômica, o Japão, tampouco tem exército, pelas mesmas razões. A China está se tornando uma potência, mas a sua base econômica ainda é insuficiente para estar no páreo. A Rússia está se organizando, e também precisará de algumas décadas. A Europa está se aglutinando, e tomou consciência de que precisa tomar as suas distâncias relativamente aos Estados Unidos. A decisão de realizar os imensos investimentos do projeto Galileo, que envolve um sistema de satélites para assegurar o equivalente europeu ao GPS dos Estados Unidos, mostra claramente que a unidade construída nos tempos da guerra fria no quadro da OTAN já não constitui a referência central.

Fato igualmente importante, o Euro assegura pela primeira vez uma alternativa ao dólar. Com a adesão de várias nações como a Polônia, a república Checa e outros países da região, a União Européia se tornará sem dúvida a principal potência econômica mundial.

Em outros termos, dentro de algumas décadas teremos uma China com visões e poder de primeira ordem, a Rússia voltará a ser uma potência, a União Européia deverá assegurar a dimensão militar da sua força econômica. A supremacia norte-americana constitui um raro momento de domínio absoluto, e ao que tudo indica, o governo americano, com a força dos grupos financeiros, da tradicional direita republicana, e da rede das empresas transnacionais, entende que é a hora e a vez do império.

Se não existisse o Bin Laden, seria preciso inventá-lo. O fato é que os Estados Unidos estão se dotando rapidamente de instrumentos internos e externos de controle que só podem preocupar. Internamente, está em construção uma imensa rede nacional que consiste em cada americano ser um vigilante dos seus vizinhos, e o projeto é de se chegar a que um em cada 20 americanos seja um informante. Nas Universidades, o Pentágono está negociando um projeto com três vertentes: controle dos estudantes estrangeiros, controle da pesquisa científica, e autorização prévia de publicações.4 As iniciativas são inúmeras, e assustam.

No plano externo, o chute dado sem cerimônia nos acordos de Kyoto levam uma mensagem clara à comunidade internacional. A “cassação” do diplomata brasileiro Bustani, que ousara sugerir que os Estados Unidos também deveriam se submeter a controles, permitiu lembrar a todos os funcionários das organizações internacionais que algumas nações são mais Unidas que outras. Além de não aderir ao tribunal penal internacional, de imensa importância para a gradual construção de uma governança planetária, os Estados Unidos estão ameaçando com corte de apoio militar qualquer governo que não reveja a sua adesão. A Folha de São Paulo, sob o título “Licença para Matar”, comenta em editorial o perigo que representa o projeto do secretário de Defesa Donald Rumsfeld de permitir a participação de militares americanos em ações clandestinas ao redor do globo. A proposta dispensa consulta aos respectivos governos.

Isoladamente, estas várias iniciativas preocupam, e muito. Tomadas em conjunto, apontam para uma vontade clara de uso da força militar, econômica e midiática no planeta todo, sem que haja realmente força que possa fazer contrapeso. E o freio interno, que é da oposição democrática dos próprios americanos, pode-se tornar simbólico frente à intensidade com a qual se agita simultaneamente a bandeira americana e os sucessivos espantalhos externos.

Governança global

O planeta está maduro para algum tipo de governança global. Os sistemas de especulação financeira, atividade que se globaliza tão facilmente com as novas tecnologias, estão simplesmente desarticulando o processo básico do desenvolvimento econômico, que consistia no circuito trabalho – produção – lucro – investimento – salários – consumo – produção e assim por diante. E não existe banco central mundial, o que leva a um caos onde lucra o mais forte, e não o mais produtivo, e quebram as economias frágeis, que são as que mais precisam evoluir par equilibrar o sistema mundial. O fato de um Soros ou um Gates jogarem milhões de dólares aqui e ali para os pobres não muda nada no sistema.

O controle mundial da mídia, hoje na mão de meia dúzia de magnatas, constitui outro problema chave, pois um planeta desinformado gera apenas cidadãos impotentes e perda de capacidade de organização social. Os Estados Unidos reinam nesta área. A Índia e a China representam 40% da população do planeta, e o que lá acontece, neste pequeno planeta, nos interessa a todos. Praticamente nunca aparece nada nos sistemas de comunicação sobre estes países. Perdemos até a noção de quanto somos desinformados. O mais trágico, quando não sabemos algo, é que se trata de dimensões da realidade que simplesmente desconhecemos, e portanto não temos consciência do vazio.

O crime organizado tornou-se planetário. Isto envolve desde os traficantes de droga, que destroem centenas de milhões de vidas, até os bancos que lavam o dinheiro – alguns dos que agora respondem a processos são American Express, CityGroup e empresas deste porte – ou os produtores de armas de pequeno porte, que alegam ser honestos produtores e comerciantes – we don’t pull the trigger, dizem, indignados – ou ainda os que vendem materiais radioativos. Os Estados Unidos são responsáveis por 48% das exportações de armas no mundo. O que se colhe com este tipo de semente? Uma avaliação do Business Week sobre o uso do e-commerce nos Estados Unidos é de que 70% das transações envolvem atividades anti-sociais ou criminosas. Organizara redes mundiais de crime tornou-se hoje tão prático…5

A lista é longa. Não há como salvar os mares sem uma política mundial, não há como prevenir o aquecimento global, proteger a água, controlar determinadas doenças. O fato é que a globalização dos problemas atingiu um nível em que não é mais possível postergar o desenvolvimento de instrumentos de governança planetária.

Há algumas filosofias básicas de construção da governança planetária. A União Européia criou uma visão de aproximações negociadas entre países, com consultas democráticas que permitem por exemplo que hoje a Dinamarca e a Inglaterra participem da União mas não aceitem a moeda comum. Trata-se de um processo de articulações horizontais. Surgiu, é preciso dize-lo, de condições muito específicas, e em particular dos imensos massacres da primeira e segunda guerras mundiais, que geraram a dinâmica necessária para um “basta”.

Uma outra visão surgiu nos últimos anos, que busca repensar as organizações multilaterais no sentido de assegurar a governança global. Na essência, a proposta consiste em se reformular o conselho de segurança da ONU, ampliando-o, para formar um tipo de executivo mundial. As grandes agências financeiras internacionais, o FMI, o Banco Mundial e o BIS (banco internacional de compensações, de Basiléia), formariam um tipo de banco central mundial. A assembléia geral da ONU, reformulado para assegurar melhor representatividade, formaria um tipo de parlamento mundial. E as agências especializadas, como a FAO, UNESCO, UNICEF etc., formariam ministérios especializados em agricultura, educação e assim por diante.

Uma mega-burocracia mundial resolveria? Os mais de 50 anos de funcionamento da ONU, e até os vinte anos da SDN (Sociedade das Nações) antes disto, mostraram que uma burocracia deste tipo depende das forças políticas, econômicas e militares reais que estão por detrás das tomadas de decisão.

Outra tradição, mais antiga, nos vem de Bismarck, que para transformar as províncias alemãs em país, começou em 1866 com um mercado comum – o Zollverein, tipo de Alca da época – para depois, ao provocar a guerra com a França, juntar todos debaixo das asas da Prússia, contra o inimigo comum. Assim a potência maior absorve as outras, num processo simultaneamente econômico, político e militar, onde a lógica é imposta pelo mais forte.

Os americanos, ao que tudo indica, conhecem Bismarck, e já têm a resposta. Num longo artigo, a revista Time coloca claramente a vocação dos Estados Unidos para liderar o mundo. A razão invocada é simples: we have earned it, nos o fizemos por merecer. Os Estados Unidos terão a força suficiente? E basta ser mais forte? A que ponto a visão simplificada do mundo dos americanos poderia se tornar um modelo padrão para o planeta, com as suas imensas diferenças culturais, os seus desníveis econômicos?

A análise do mundo realmente existente sugere outros caminhos. Uma coletânea de estudos sobre a “democracia cosmopolita”, intitulada Re-imagining Political Community, constata-se que praticamente todas as organizações do planeta, grandes ou pequenas, políticas ou econômicas, privadas ou públicas, e em particular as organizações da sociedade civil, estão tecendo um emaranhado impressionante de relações planetárias. Revisando os acordos internacionais da PUC de São Paulo, constatamos que em 2000 esta universidade tinha realizad cerca de 1500 ações de cooperação internacional. Hoje qualquer ONG tem um sistema cada vez mais rico de relações internacionais. Qualquer hospital mais desenvolvidos tem uma rede de intercâmbio de médicos, de trocas tecnológicas e assim por diante. A coletânea mencionada sistematiza este tipo de transformações, e desenha o que chamou “the proliferating networks of an ever more interdependent world” , a proliferação de redes de um mundo cada vez mais interdependente.

Nesta visão, “para adquirir a legitimidade e apoio de que necessitam para se manter, mecanismos de governança que produzam resultados evoluirão mais provavelmente a partir de um processo de baixo para cima do que de cima para baixo.” 6

Em outros termos, o que se coloca é a construção da democracia planetária, e da articulação em rede dos mais diferentes atores sociais, e não apenas de uma visão inter-nacional ou multi-lateral. As organizações da sociedade civil têm avançado rapidamente neste sentido, como se constata nas reuniões do Fórum Social Mundial e na visão de que “um outro mundo é possível”.

Mas a realidade, de forma geral, é que a construção de uma capacidade de governança planetária, de rearticulação do processo caótico e destrutivo que preside às nossas transformações e que os fundamentalistas tecnocráticos chamam educamente de neo-liberalismo, torna-se cada vez mais urgente, e a nossa impotência institucional é cada vez mais preocupante.

Os desafios do planeta são dramáticos. A economia se globalizou em grande parte, enquanto as políticas econômicas continuam segmentadas em nações. Os sistemas internacionais herdados de Bretton Woods se propunham articular e enfrentar de maneira ordenada diferenças entre nações, e não funcionam para os espaços globais. As polarizações entre ricos e pobres se aprofundam, acrescentando à exclusão econômica a exclusão digital. A vida nos mares está sendo destruída. O aquecimento global já não é mais uma dúvida, e não se consegue tomar nenhuma medida. Frente ao caos que gradualmente se instala, a questão não é denunciar os Estados Unidos. A questão é que o planeta não pode prescindir de um Estados Unidos democrático, e contribuindo ativamente para a governança global. O mínimo que se pode dizer, neste início de milênio, é que não estão contribuindo.

1 - Paul Johnson - A History of the American People - Harper Collins, New York, 2002; as referências a Gunnar Myrdal encontram-se na p. 952

- "American soldiers, oilmen and diplomats are rapidly getting to know this remote corner of the world, the old underbelly of the Soviet Union and a region that has been almost untouched by Western armies since the time of Alexander the Great. The game the Americans are playing has some of the highest stakes going. What they are attempting is nothing less than the biggest carve-out of a new U.S. sphere of influence since the U.S. became engaged in the Mideast years ago" - Business Week, May 27, 2002, p. 43

- Entrevista no canal de televisão CNN, 7 de julho 2002 - Em inglês, o "like it or not" pode se dirigir tanto ao público externo (gostem ou não) como ao público americano (gostemos ou não).

- Ver o artigo de Daniel G. Dupont, Staying Open: universities worry about the strain on academic freedom in the face of classified research - Scientific American, September 2002, p. 10

5 – Dados da imprensa internacional. Os 48% referentes às exportações de armas estão nos anuários das Nações Unidas. Sobre o uso criminoso da internet, ver o artigo de capa de Business Week , 2 de setembro 2002: “North of 70% of all e-commerce is based on some socially unacceptable if not outright illegal activity”. O artigo menciona fraudes financeiras, exploração de crianças, receitas médicas ilegais, produção de passaportes e carteiras de identidade, pirataria etc. Curiosamente, o assedio comercial que enche de lixo as nossas caixas postais (reais ou virtuais) não é mencionado como ilegal.

6 – James rosenau, Governance and Democracy in a Globalizing World, p. 33; in Daniele Archibugi, David Held & Martin Kohler, Re-imagining Political Community, Stanford University Press, California 1998. No original, o texto de Rosenau é: “In order to acquire the legitimacy and support they need to endure, successful mechanisms of governance are more likely to evolve our of bottom-up than top-down processes”.

Sobre o autor

Ladislau Dowbor nasceu na França em 1941, filho de poloneses que, com o final da Segunda Guerra, emigraram para o Brasil. Viveu inicialmente em Belo Horizonte, e em 1954 mudou para São Paulo, onde vive até hoje, já como brasileiro naturalizado. Em 1964 viajou para a Suíça, formando-se em Economia Política pela Universidade de Lausanne, na visão neoclássica de Walras e Pareto. Voltou ao Brasil em 1968, e participou do movimento de resistência à ditadura militar, sendo exilado em 1970. Depois de vários anos como refugiado na Argélia, Chile e outros países, viajou para a Polónia onde obteve os títulos de mestre e de doutor em Ciências Econômicas, na Escola Central de Planejamento e Estatística, na linha de Oskar Lange e Michal Kalecki. Com a “Revolução dos Cravos” de Portugal, em 1974, foi convidado para trabalhar na Universidade de Coimbra. Em 1977, a recém-independente Guiné-Bissau o convidou para assumir a coordenação técnica do ministério do planejamento, sob a direção de Vasco Cabral, com quem trabalhou quatro anos, realizando ainda numerosas assessorias para as Nações Unidas.

Com a anistia voltou ao Brasil, e passou a lecionar economia e administração na Puc de São Paulo, onde continua até hoje, no setor de pós-graduação. Mais tarde passou a lecionar também no mestrado da Universidade Metodista de São Paulo. Paralelamente, continuou a trabalhar na organização de sistemas descentralizados e participativos de gestão econômica, na Guiné Equatorial em 1984, na Nicarágua em 1987, no Equador em 1990, dirigindo projetos das Nacões Unidas. No período 1989-92 foi assessor de relações internacionais e Secretário de Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo, na gestão Luiza Erundina.

Atualmente desenvolve assessoria e pesquisa relativas aos sistemas descentralizados de gestão social, no quadro de prefeituras, governos de Estado e organizações internacionais como Unicef, Pnud/ops, Habitat e outras. É conselheiro de organizações não governamentais como Fundação Abrinq, Polis, Transparência Brasil e outras.

Tem numerosos livros publicados, entre os quais O que é Capital?; Formação do Capitalismo Dependente no Brasil; Guiné-Bissau: a Busca da Independência Econômica; Formação do Terceiro Mundo; O que é Poder Local?, todos pela Editora Brasiliense. Aspectos Econômicos da Educação, pela Ática. O Mosaico Partido, pela Editora Vozes. Seus artigos, livros e estudos técnicos podem ser encontrados na home-page http://dowbor.org ou através do e-mailladislau@dowbor.org