O subtítulo diz tudo: “The Collapse and Revival of American Community”, o colapso e o reviver da comunidade americana. O aporte de Putnam tem sido, a meu ver, imenso, pela reorientação que promove nas ciências sociais em geral, ao recolocar ano centro da discussão o conceito de capital social. O livro anterior de Putnam, Making Democracy Work, sobre o capital social na Italia, já tinha apontado os rumos. Agora, ao retomar o exercício mas de maneira muito mais ampla e sobre riquíssimo campo dos Estados Unidos, as visões se tornam muito mais concretas.

O conceito é simples: o capítal econômico é importante, sob forma de máquinas, infraestruturas econômicas etc., e o capital humano também, sob forma de educação, conhecimentos adquiridos e assim por diante. E o capital social constitui de certa forma o tecido de articulação social que faz com que os outros “capitais” sejam mais ou menos úteis: manifesta-se sob forma de relações de confiança (trust), de riqueza de contatos de vizinhança, de convivialidade geral que permeia (ou não) a sociedade. O estudo que Putnam fez da Italia nos mostrou uma região Sul onde um sistema opressivo de autoridade tradicional bloqueava tanto o desenvolvimento econômico como a riqueza do convívio; um Norte onde o crescimento econômico é muito grande, mas há pouca qualidade de vida, pela erosão dos aspectos não econômicos do convívio social; e uma região Centro, onde uma tradição de cooperação, de confiança e solidariedade (capital social) torna tudo mais fácil do ponto de vista econômico, e mais agradável do ponto de vista social.

No caso dos Estados Unidos, em Bowling Alone, trata-se de estudar a evolução do capital social nas suas mais variadas manifestações: por exemplo, dois terços das empresas norte-americanas adotam sistemas eletrônicos de vigilância dos trabalhadores: isto marca uma forte deterioração do capital social. A televisão, por exemplo, levou a uma forte deterioração de atividades voluntárias, o que em sí prejudica o capital social, mas levou também a um forte aumento de sentimento de isolamento na nova geração, causa parcial do suicídio de jovens ter sido multiplicado por quatro entre 1950 e 1995. Putnam estuda a forma como o americano utiliza o tempo disponível (os time diaries, coisa que os franceses estudam como structures du quotidien) : quanto tempo se passa no trânsito, quanto frente à televisão e assim por diante. Constata-se que a televisão absorve praticamente a totalidade do tempo livre que ganhamos numa série de áreas profissionais, reduzindo o tempo que tempo para jogar boliche, para jantar com amigos ou outras atividades sociais.

O livro é demasiado rico para tentarmos resumí-lo, ficamos pois apenas com alguns exemplos a título de tira-gosto. É uma leitura que me parece essencial, tanto pelos conceitos que desenvolve, como pela metodologia científica exemplar desenvolvida no conjunto do trabalho. Em nenhum momento uma simples correlação é transformada em causalidade, os possíveis argumentos contrários sempre são apresentados, e encontramos um manancial de sugestões de leitura na riquíssima bilbiografia comentada.

Se tomarmos um pouco de recúo, podemos constatar como de maneira ampla, ainda que sem muito alarde, estão se contruindo novos rumos. Putnam coinsidera com razão que uma sociedade onde se perdem as relações de confiança e o convívio gratúito perde boa parte de sua razão de ser. Amartya Sen, no seu recente Development as Freedom, comenta que “a sociedade opera sobre a base da confiança básica presumida”. A confiança faz parte do capital social, e se torna essencial para a nossa qualidade de vida, conceito em grande parte captado pelos novos Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) desenvolvidos pelos Relatórios sobre o Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Estes Relatórios inovam na medida em que a educação não é mais vista como útil porque favorece a produção nas empresas (o Banco Mundial chamava isto de educação para o desenvolvimento) mas porque uma vida com educação, cultura, lazer, saúde, é o que queremos da vida, é o fim e não um meio.

É curioso como as coisas se cruzam. O Business Week, publicação que ninguém ousará taxar de esquerdista, constata na sua edição de 11 de setembro de 2000 que 74% dos norte-americanos estão indignados com o big business. Apenas 4% declararam acreditar no argumento de que as corporações tem obrigações apenas com os seus acionistas. De certa maneira, a competitividade foi reduzida ao seu aspecto apenas empresarial. O conceito de administração, isolado da visão mais ampla de utilidade social, perdeu de vista o fato do desenvolvimento e da produção terem como sentido final a qualidade de vida das pessoas. Criamos uma sociedade de loners angustiados, de indivíduos isolados e inseguros, sentados frente a uma televisão onde podemos escolher a mesma coisa em inúmeros canais, comendo salgandinho e pensando qual o sentido de tudo isto. O que tranparece no grande número de trabalhos científicos que começam a surgir por toda parte, é que não se trata mais de inventar modelos que maximizem o lucro especulativo de algum banco, mas de repensar os fundamentos culturais e civilizatórios do conjunto do processo.