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Um resumo da trajetória científica de Ladislau Dowbor, no quadro dos artigos da revista Pesquisa e Debate, sobre como se formam as opiniões, na costura insegura de teorias, vivências e valores que caracteriza o cientista realmente existente. Pesquisa e Debate, Pós-Graduação em Economia Política da Puc de São Paulo, vol. 8, número 1 (10), 1997. (l. Dowbor)

 

Ciência, vivência, consciência…

Ladislau Dowbor
Março de 1997

A formação científica é apenas parcialmente um processo técnico. Conjugam-se e se articulam raízes emocionais, história vivida, meio social e também instrumentos técnicos e visões teóricas. A ênfase do presente artigo será portanto na “mistura” dos diversos níveis. Sugere-se ao leitor uma leitura crítica: nada mais perigoso do que um economista falando de si mesmo, com a imensa propensão que temos, porque uma nuvem de hipóteses sempre nos circula na cabeça, de pensar que o ocorrido já nos era previsto. Esta capacidade de previsão a posteriori não ocorre, é preciso dizê-lo, somente entre economistas.

Inícios

Nasci na França, em 1941, de pais poloneses, numa casa jogos na fronteira espanhola. É provavelmente difícil um brasileiro imaginar o que era nascer na Europa em 1941, no meio de um conflito que ceifou 80 milhões de pessoas. Nascia-se onde se podia. Como a Espanha era de moralidade elevada, as pessoas ricas iam jogar e se divertir na França, e assim o regime franquista semeou os Pireneus de casinos. Os meus pais, que tinham participado da I Guerra Mundial, e na Segunda já não se entusiasmavam com os hinos patrióticos, fugiram dos alemães pelo sul da Polônia, e foram parar na França, e continuaram fugindo para o sul à medida que os alemães avançavam. Assim fui nascer nos Pireneus, numa casa de jogos. Tudo tem as suas razões.

Nascer no estrangeiro é importante, porque já se nasce fora do lugar. Ou seja, a criança já é obrigada a tomar consciência de como é, pois as crianças, que reagem agudamente a qualquer diferença, de roupa, sotaque ou cultura, têm com uma criança estrangeira um prato cheio. Assim, desde os primeiros anos, vão se confrontando culturas: nada é realmente espontâneo, natural, óbvio, pois cada coisa é vista de uma forma em casa, e de outra forma na rua. Em casa era pai e mãe, a Polônia, a religião, os valores. Na rua e na escola, outra cultura, outros valores. Não havia um sistema “natural” de valores, e sim a possibilidade de diversas valorizações para cada coisa. Desde pequeno, a necessidade da escolha.

A guerra é outro fator. Todo europeu é marcado por ela. Marcado em particular pela profunda convicção de que qualquer homem, rico ou pobre, educado ou não, em determinadas circunstâncias vira herói, e em outras vira bicho. De ver as aberrações de que o ser humano é capaz em certas circunstâncias, perde-se a visão do “homem bom” e do “homem mau” como determinantes do comportamento. Segundo o ditado, o homem é as suas circunstâncias. Mais importante do que glorificar o bom ou perseguir o mau, é pensar nas circunstâncias, no contexto que constrói ou destrói as relações sociais.

Em 1951 chegamos ao Brasil, pois meu pai, um engenheiro metalúrgico, tinha conseguido um contrato com a Belgo-Mineira, em João Monlevade. Ficamos alí na Vila dos Engenheiros, e era um choque para mim, o primeiro choque no Brasil, de ver um universo tão profundamente dividido entre os de cima e os de baixo, entre a Vila dos Engenheiros e a Vila Tanque, onde viviam os trabalhadores. A grande impressão de quem chega da Europa, realmente, é de que a divisão em Casa Grande e Senzala continua intacta, por mais tecnologia moderna que se introduza. De certa forma, sedimenta-se outra idéia, que se tornaria consciente mais tarde, de que modernidade é uma forma digna de relações humanas, e não abundância de máquina ou automóvel.

Meu pai nunca gostou do autoritarismo dos luxemburgueses. Expôs-me um dia um plano simples de melhoria da produtividade da laminação, corrigindo um erro estrutural grotesco da fábrica. Perguntei-lhe o que acharam na diretoria: olhou-me espantado, pois nunca iria comunicá-lo à diretoria, não era do seu interesse. Marcou-me muito a atitude, pois me parecia óbvio que uma pessoa que vê uma forma de melhorar algo tomaria providências para fazê-lo. Na visão do meu pai, obviamente, a fábrica era “eles”, o outro lado da cerca, outro mundo. Assim um engenheiro numa empresa estava ao mesmo tempo dentro e fora, cumpria a sua obrigação e recebia o seu salário. Cada lado cumpria apenas a sua obrigação. Um dia solidarizou-se com um trabalhador contra um engenheiro alemão. Pouco tempo depois procurava emprego em São Paulo. A fábrica também dividia o mundo em “nós” e “eles”.

Minha mãe era médica. Enquanto o meu pai abria espaço em São Paulo, ficamos em Belo Horizonte, onde estudei no Colégio Loyola, morando na Gameleira. Em plena Afonso Pena, uma mendiga, com um bebê evidentemente subnutrido nos braços, veio lhe pedir esmola. Minha mãe viu a criança, armou um escândalo, não arredou o pé enquanto não chamaram médico, ambulância, o diabo. Eu, com 11 anos, puxava a minha mãe pelo braço, morrendo de vergonha. Mas ela era assim, não tolerava o intolerável, e não tinha nenhum medo de escândalo. Certas coisas simplesmente não se aceitam. Ainda hoje, vinte anos após a sua morte, sinto como que uma herança da sua solidez. É preciso dizer que já para se formar médica nos anos vinte, uma mulher tinha de ser um bocado mulher.

A sua solidez não foi suficiente para se adaptar, ou a sua capacidade de se indignar seria demasiada para o cotidiano do Brasil. Com a morte de Stalin, decidiu voltar para a Polônia, preparando o retorno da familia. O retorno não aconteceria. Efeito indireto da guerra, enquanto o segmento brasileiro da família engrenava na realidade local, ela foi sendo reabsorvida pela familia na Polônia. Como o meu pai trabalhava em empresas do interior, eu e meu irmão, ambos adolescentes e já instalados em São Paulo, passamos a viver a ampla liberdade da vida nas pensões da cidade, gozando intensamente as esquinas, os bares, os jogos de futebol nas várzeas, toda uma dimensão de vida e uma riqueza de convívio que compensavam amplamente a perda da vida familiar organizada. Era a riqueza cultural brasileira digerindo rapidamente as heranças européias, como tinha feito com tantas gerações de imigrantes.

As emoções andam por caminhos desconhecidos. Apaixonei-me desesperadamente por uma moça judia, de origem polonesa como eu. O pai, ao descobrir que a filha andava com um goi, mandou-a sumariamente para Israel, para que conhecesse rapazes circuncizados. A Europa e os seus ódios continuavam ativos no Brasil, e nos colhiam, a mim e à Pauline, com toda força. O pai tinha perdido a familia na Polônia, e não perdoava que a filha não herdasse os seus ódios. Trabalhei um ano inteiro, era 1963, tentando juntar dinheiro para encontrá-la em Israel, numa época em que viajar para a Europa era um acontecimento. Como meu pai trabalhava na Açonorte, em Pernambuco, fui trabalhar no Recife, onde me tornei repórter do Diário da Noite e do Jornal do Comércio.

Escrevia bem, e com pouco tempo o jornal me nomeou para acompanhar o setor dos usineiros. Quando me apresentei para colher material, a associação dos usineiros ofereceu-me em dinheiro o dobro do que eu ganhava no jornal. Explicaram que era normal, o jornal tinha me feito um favor, e os jornalistas que cobriam a área recebiam esta ajuda. Recusei a ajuda, e o chefe de redação comentava rindo que um dia na imprensa brasileira ainda haveria espaço para este tipo de recusas. Na realidade, não era apenas a corrupção institucionalizada que me chocava. O impacto da miséria do Recife era violento, e o fervilhar de idéias do governo de Miguel Arraes gerara na cidade uma nova dinâmica cultural. Como repórter, apesar da pouca idade, encontrava Paulo Freire, Celso Furtado, Gilberto Freire, Ariano Suassuna e outros personagens que, de diversas formas, alimentavam reflexões sobre a realidade nordestina e brasileira. Encontrei no Movimento de Cultura Popular gente da minha idade, muito mais politizada, se dedicando intensamente a transformações sociais. Girara o caleidoscópio na minha cabeça, apareceu um conjunto de novos pontos de referência, meu gosto pela filosofia e pela linguística foi substituido pelo da economia. Queria entender as coisas, os porquês, os mecanismos, e já estava convencido que nas dinâmicas econômicas estariam as raízes dos problemas sociais.

Uma noite o meu pai, que morava junto da Açonorte, veio ao Recife e me convidou para jantar. Fomos comer uma lagosta. Na porta do restaurante uma criança visivelmente passando fome. Jantei para não chatear o meu pai, mas o dilema ético tornou-se cristalino na minha cabeça: uma pessoa que janta uma lagosta e deixa uma criança com fome só tem dois caminhos, ou muda os seus valores e acha normal o consumo de luxo frente à fome de uma criança, ou passa a tentar a mudar a situação que gera estes absurdos. Com o tempo viria a conhecer complexas montagens teóricas que tentam mostrar que a pessoa que consome dinamiza a economia, passes de mágica que permitem transformar o egoismo em altruismo e passa um pano quente na consciência. Mas na época não conhecia as teorias, e a juventude tem a hipocrisia social pouco desenvolvida.

Pouco depois deste evento li um livro simples e bom, que demostrava que a caridade de uma moeda na rua é boa, mas melhor é gerar organizações que apoiem os pobres, e melhor ainda criar instituições justas que impeçam a pobreza de surgir. São diferentes níveis de caridade. Para mim, o “norte” ético estava definido, sem nenhuma leitura de Marx, por simples raízes católicas e valores herdadas da minha mãe: a pobreza é o escândalo maior, e as medidas individuais não bastam.

Faculdade

Em fins de 1963 viajei para Israel. Com 230 dólares, no vôo da Tap que oferecia desconto para jornalistas, cheguei a Lisboa, seguí de carona até Nápoles, de onde um velho e tradicional barco fazia a rota para Haifa. O navio era repleto de judeus que iam visitar a sua nova pátria, e as noites ressoavam a cantos hebráicos. Com mais dois dias de carona estava em Eilat, no golfo de Akaba, com Pauline. A vida não é novela. Como dois cegos tateávamos à procura um do outro, pois ambos havíamos amadurecido, um ano de adolescente é uma eternidade, eram duas novas pessoas que tinham de reconstruir a sua relação. Em um ano de separação Pauline não havia recebido uma carta minha que não tivesse sido aberta antes, o pai mandara lhe retirar o passaporte para que não pudesse sair do país. Ela não podia sair, e eu não podia ficar porque era turista, não-judeu, com visto de tres meses. Aprendíamos a dura realidade: a sociedade está organizada em torno a documentos, não em torno a pessoas.

Através de amigos, numa rede de solidariedade clandestina que existia na época, fomos trabalhar numa plantação à beira do mar Morto, em Neot-Hakikar. Trabalhando com excelentes agrônomos, aprendí a cultivar tomates, tâmaras e outros produtos, a fazer irrigação por gotejamento e outras tecnologias incipientes na época. No calor terrível da região, que fica quase 400 metros abaixo do nível do mar, ninguém pedia documentos, e pagavam bem. Alí ouvimos no rádio o relato do golpe de Estado de 1964, que veio reforçar a indignação, a vontade de mudanças.

Aprendí hebráico, e me emocionava viver a bíblia ao vivo, lendo os trechos correspondentes ao visitar Ein Gedi, Beer Sheva e tantos outros lugares da região. Sempre gostei de linguas. Aprendí o polonês em casa, depois o francês, o português, e o inglês que me veio com muita facilidade já na escola, mais tarde aprenderia o espanhol, o italiano e o russo. O hebráico bíblico me chegou por uma situação absurda. Com Pauline tentávamos casar, não que dêssemos tanta importância ao ato, mas para que ela pudesse ter direito ao passaporte brasileiro e sair do país. Para evitar misturas inconvenientes, Israel não permite casamentos que não sejam religiosos, nem entre religiões diferentes. O resultado prático é que ela passou a tomar aulas de catecismo, e eu passei a frequentar um rabino numa escola religiosa, e a nossa visão ingênua era de que nos casaríamos na religião que saisse primeiro. Tentamos ainda nos converter ambos ao islamismo, mas não tínhamos contatos nesta área.

Paralelamente batíamos consulados e embaixadas tentando descobrir alguém que colocasse um visto no documento provisório que Pauline havia recebido. Finalmente uma admirável consulesa da Dinamarca, emocionada pela nossa situação, deu um visto de tres meses em condições bastante irregulares. Com isto pudemos obter um visto para a Italia. Pauline criara ódio por Israel, pelo controle permanente que alí sofrera, e queria desesperadamente sair, se sentir livre, dona de sí. Trocando de taxis, na melhor tradição de filmes de James Bond, embarcamos em Haifa.

Não há dúvida que tudo isso tem uma certa dimensão de novela. Com certo distanciamento, é muito impressionante ver como uma pessoa pode ser destituida dos seus direitos, simplesmente porque não tem os documentos apropriados. Como pessoas que sofreram perseguição podem se tornar implacáveis perseguidores, como vítimas de racismo podem passar a viver do racismo. Ao ver como judeus europeus discriminam em Israel os judeus de origem africana – aliás brancos como êles mas chamados de “pretos” – ou como inculcam às suas crianças uma visão racista dos árabes, fui gradualmente entendendo a que ponto as raízes emocionais e irracionais da política são poderosas. E ficou clara para mim uma verdade sociológica: direitos não organizados não se materializam, não existem, ainda que sejam essencias.

Com mais seis meses, a familia decidiu dar-se por vencida, mandaram um passaporte para Pauline, que se tornou livre, podia viajar, atravessar uma fronteira. Instalamo-nos em Lausanne, na Suiça. Saíamos do Mar Morto para o Lac Léman, com cisnes educados e graciosos, e uma universidade que aceitava alunos com a naturalidade do direito adquirido, formando bons banqueiros, na melhor tradição de Walras e Pareto. Uma boa escola neoclássica, com muita história, direito, matemática, teoria. Não sei o que é mais rico: a cultura que se aprende num novo país, ou os estudos. De toda forma, hoje entendo que conhecer diversos países é absolutamente fundamental mesmo para que o próprio estudo teórico tenha vivências nas quais possa se grefar e se desenvolver.

Aprendí, me diplomei em economia política. Começava a entender as coisas, e quanto mais entendia as coisas mais me dava raiva. São coisas simples. O tratado de Versalhes, por exemplo, finalizando a I Guerra Mundial, dividia o Oriente Médio em povos com capacidade política, e outros com necessidade de tutelagem pela Inglaterra e outras potências. As reservas conhecidas de petróleo coincidiam rigorosamente com os povos a serem tutelados. Uma história do Vaticano liquidou qualquer ilusão sobre a santidade das santidades, e assim por diante. Mas o curso que mais me estimulou foi do Piaget, que convidou para o seu último semestre letivo matemáticos, biólogos, economistas e outros para discutir metodologias científicas. Fui dos felizes convidados, em parte graças a Pauline que estudava com ele, em Genebra. Era impressionante ver o paralelo entre os procedimentos de Marx numa área, e os de Piaget em outra. Em vez de medir a inteligência com testes quantitativos, na linha do QI norteamericano, Piaget se concentrara no processo evolutivo da inteligência. Em vez de considerá-la como estoque acumulado, entendeu que resultava de um processo dialético de interação entre o indivíduo e o mundo que o cerca. Em vez de conceber uma evolução linear, mostrava como acúmulos pontuais levavam a mudanças qualitativas, a saltos de inteligência que delimitavam fases. Era fascinante, pois Piaget fazia a ponte com as diversas áreas científicas. Foi um momento privilegiado, que costurou os meus estudos de economia com o universo científico mais amplo. Aprendí a importância do método.

Lia Marx, os livros novos que saíam da editora Maspéro, fervia a indignação de todos com a guerra do Vietnã. Não que a guerra fosse pior que as outras, mas a gigantesca dose de hipocrisia descarada dos americanos decuplicava a indignação. De certa forma, a dimensão das mentiras varreu do mapa a credibilidade americana, e inclusive a compreensão das facetas positivas do país. Os americanos tinham o seu demônio, Moscou, nos teríamos o nosso, os americanos. Tornamo-nos assim de certa maneira comunistas, não por querer, ou sequer entender bem o que se passava nestes países, mas pelo fato que a polarização ideológica empurrava quem não estivesse de um lado para o outro. Se havia tantas mentiras, e eram evidentes no caso do Vietnã, o que haveria de verdadeiro no caso das denúncias contra o comunismo? Um pouco de leitura de história apontava para o apoio que os governos americanos sempre deram às ditaduras sangrentas de Batista, Somoza, Papa Doc e tantas outras. Arvorar-se em defensor da liberdade e dos direitos humanos, francamente…

Acho que a dimensão ética sempre foi subestimada. Boa parte desta juventude que se agitava na Europa, como nos outros continentes, recebia dos seus pais grande quantidade de eletrodomésticos e uma herança moral abaixo do nível do mar. Os pais achavam que tinham se sacrificado, que os filhos se queixavam de boca cheia, mas a parte mais generosa desta juventude queria outra coisa.

Estava em Paris quando a França parou, em maio de 1968. Era muito impressionante ver o povo na rua, os bairros se organizando para gerir os seus interesses de forma direta, De Gaulle indo para Estrasburgo para discutir o eventual apoio do exército alemão. Isto se cruzava com as manifestações nos Estados Unidos, o sentimento geral de falência moral do sistema. De repente, ficava transparente esta mistura de força e fragilidade que enfrentávamos.

Sabíamos, de certa forma, onde estava o mal, mas não onde estava o bem. Por polarização natural, apoiávamos o comunismo, mas era por um nivelamento artificial do anti-americanismo. Cuba foi, neste sentido, um imenso polo de atração, experiência transparente, finalmente uma ética na política, um objetivo social claramente definido. Não era, como tanto acreditaram os órgãos de segurança do Brasil, questão de propaganda comunista. Tratava-se da única opção decente a se apoiar, frente às injustiças, corrupção e bandidagem política dos regimes sulamericanos. Injustiças, corrupção e bandidagem política que, aliás, continuam em boa parte intactas.

Tempo de luta

Um grupo de estudantes e professores brasileiros reunía-se em Paris. Eu, que financiava os meus estudos trabalhando nos trens noturnos internacionais, aproveitava as escala em Paris para participar das reuniões. A opção luta armada não me parecia apresentar mistérios, estava no ar, todos conheciam bem a resistência vietnamita, a revolução cubana, a guerrilha de Angola, de Moçambique, de Bissau…Fazia parte das opções. Pessoalmente, não me julgava capaz de definir grande coisa, pela própria insuficiência de cultura política, e quando as pessoas com quem convivia em Paris, com outro nível de experiência, me chamaram, fiz as malas e fui.

Com dois meses estava preso. Era terrorista e comunista. Descobrí que era procurado pela polícia política desde o golpe: eu estudara russo no instituto Brasil-Urss no Recife, prova suficiente de subversão. Não adiantou mostrar que na mesma época eu estudava inglês no Instituto Roosevelt, e italiano no Circolo Italiano, por simples gosto de idiomas. Com algum tempo de pau-de-arara, choques elétricos e uma costela deslocada, dei-me por satisfeito. Inventei que recebia mensagens terroristas no viaduto Santa Efigênia, em pequeno esconderijo na mureta. Joguei-me por cima do corrimão, mas a corda que me tinham passado nos braços enganchou nas ferragens, e fiquei pendurado. Mais choque elétrico. No terceiro andar do então Deic, passavam figuras folclóricas. Na minha cela, um jovem que tinha dado dois tiros no dono de um automóvel, não entendia como uma pessoa que tem um 38 enconstado na cabeça não obedece. O indignado era ele. Na cela ao lado, uma mocinha jóvem. De vez em quando aparecia um policial, mandava ela se encostar nas grades, apalpavam e judiavam. Alguns justificavam: é uma puta. Eram as forças da ordem. No momento da minha prisão, em tres minutos tinham repartido entre eles o meu relógio, dinheiro e sapatos.

Com uma semana estava solto, era antes do AI-5, os outros órgãos não tinham sabido da prisão, e o delegado recebera dos meus companheiros de luta uma sólida grana. Eram as forças da ordem. Desta vez fui à luta para valer. De certa forma, as próprias torturas justificavam a nossa luta armada, como os policiais e os militares justificariam a tortura com o fato de estarmos armados. Nos processos de polarização, o culpado é sempre o outro.

A luta era dramaticamente desigual. Não que se tratasse de pequenos grupos de estudantes, como já foi apresentado. Na época chegaram a estar mais de dez mil pessoas nas prisões, e dez mil pessoas dispostas a arriscar a vida por um ideal é imenso. Nos anos seguintes, mais nos defendíamos, pois a própria repressão nos obrigava a buscar recursos, salvar gente que estava morrendo nos interrogatórios, proteger redes de solidariedade. E toda a máquina de comunicação estava naturalmente nas mãos da repressão e dos grandes grupos econômicos que a apoiavam.

Sobretudo, o novo modelo gerara uma nova classe média que teve acesso à universidade, à casa própria, ao mercado de capitais recém criado. Era o milagre. Entre o momento do golpe e o surgimento da luta armada, passaram-se quatro anos, o tempo da indignação se transformar em ação popular minimamente organizada. Com quatro anos, o movimento concentrador de riqueza dera nova lógica ao sistema, e gerara um crescimento temporário, mas forte, que reduziu radicalmene a base política do movimento. O resto seria lenta e heróica resistência. Cheguei a ser dirigente, o que não era grande mérito, pois à medida que companheiros caíam outros tinham de assumir.

Nunca achei que foi inútil. Alguns anos mais tarde fui procurado em Paris por um grupo de jovens brasileiros que me disseram como foi importante para eles, nestes anos de chumbo, saber que tinha gente que lutava e morria mas não baixava a cabeça. Um jornalista me perguntou um dia se estava arrependido, pois “não dera certo”, não havíamos tomado o poder. Acho que o problema não é de objetivos, de lutar pelo poder, e sim de causas, que levam a uma recusa. Franz Fanon caracterizou bem o que chamou de “homem revoltado”. Certas coisas simplesmente não se aceitam, é uma questão de dignidade e não de resultados.

Preso uma segunda vez, fui trocado pelo embaixador alemão, e numa madrugada de junho de 1970 desembarcava no grupo de 40 prisioneiros políticos no aeroporto de Dar El Beida em Argel. Saí como me tiraram da prisão, sem sapatos, sem documentos, com queimaduras de choque elétrico que seriam filmadas por inúmeras emissoras do planeta. No mesmo dia, desembarcara o rei Fayçal da Arábia Saudita, em visita oficial. O jornal da terra, El Moudjahid, ostentava na primeira página os dois títulos, dos 40 prisioneiros brasileiros e do rei. O povo, sendo povo, resumiu a questão: eram Ali Babá e os quarenta ladrões.

Fomos recebidos com imenso carinho espontâneo da população, recém saída de anos de luta contra o ocupante francês. Não pagávamos taxi, recebiam-nos as famílias. Raras eram as que não tinham tido mortos ou torturados. A tecnologia do pau-de-arara e do choque elétrico combinados nascera alí. Sentiam-se plenamente identificados. O homem é as suas circunstâncias. Os representantes da frente de libertação de Angola nos explicavam as suas formas de luta, os vietcongues nos explicavam as suas técnicas, o movimento palestino nos explicava os seus dramas, o Black Panther dos Estados Unidos queria saber do movimento negro no Brasil, o Makatini discutia conosco das formas de arrancar Mandela da prisão. A vontade de mudança aparecia como generalizada.

A necessidade de mudança era também bastante óbvia. O que faziam os Portugueses, país mais pobre da Europa, tentando controlar países dez vezes o seu tamanho em outros continentes? O que faziam os americanos no Vietnã? Como podiam as organizações internacionais e os países ricos sustentar de cara limpa ditaduras as mais sangrentas, conquanto fossem “amigas”? Como justificar, em pleno final do milênio, o tráfico de armas, apresentando a capacidade de destruir seres humanos como “business”?” Como podia o partido único em Cuba ser apresentado como ditadura enquanto o partido único do México era democracia, sem falar de dezenas de outras ditaduras apoiadas pelos países ricos? Com que direito empresas multinacionais financiavam golpes de Estado? Havia, é claro, uma maravilhosa justificativa para tudo, que era o perigo comunista.

Uma coisa ficava clara para mim: uma barbaridade não pode justificar outra, o próprio conceito de que os fins justivicam os meios, tão usado nos países comunistas, era uma barbaridade. Dom Sigaud no Brasil justificava a tortura dizendo que “não se arrancam informações com docinhos”. A ditadura impunha uma constituição sem consulta e um jurista saía-se com esta pérola: “a revolução cria a sua própria legalidade”. A CIA financiava as suas operações com cocaina e heroina e explicava que era necessário ter fundos secretos. A realidade, é que os meios corrompem os fins, ou os transformam.

No centro dos nossos dilemas, agora refugiados na Argélia, era a consciência aguda e indignação frente à lógica das coisas, e nossa limitada capacidade de mudá-las. Ao mesmo tempo, entendíamos que a imensa massa de pessoas que lutavam pelo progresso social, da qual fazíamos parte, constituia um aporte decisivo para os avanços. Não era vã a morte de Martin Luther King, de Marighela, de Lumumba, de Allende, de Amilcar Cabral, de Ghandi e tantos outros: era esta parte da humanidade com capacidade de se indignar que havia levado às vezes até a recúos temporários, mas no conjunto havia permitido avanços históricos como o fim da escravidão, progresso social para os negros nos Estados Unidos, o fim das colônias, a presença das mulheres, a organização dos trabalhadores. O que se fechava para nós como caminho, não era a luta e os seus objetivos, e sim a visão de que o progresso social se consegue com atalhos, tipos de “fast tracks” que permitiriam ter ganhos políticos sem os correspondentes alicerces na cultura social e política das populações.

Estávamos entrando em 1972. Em reunião ampla da “pesada” em Santiago, propús a dissolução da organização, e a nossa reorganização visando um novo tipo de contribuição, mais ampla, de luta pelo fim da ditadura. As forças se equilibraram mas a proposta ficou derrotada. Ficou patente para mim a que ponto muitos votaram mais com a emoção do que com a razão, e sobretudo colocando na balança o peso do sentimento de culpa por estar protegido no exterior enquanto outros morriam no Brasil. Não condeno, pois ninguém é razão pura. Mas foi importante para a minha formação a compreensão de que um grupo político – e mais tarde veria que é também o caso com grupos religiosos ou até científicos – pode criar um tipo de realidade virtual, falando um vocabulário distinto, e perder o contato com as coisas.

A luta continuava. Pauline, que viera me encontrar na Argélia, foi enviada ao Recife, tentando salvar companheiros ameaçados. Morreu junto com eles. Entrou na luta quando eu dela saía, e já estávamos distantes. Não por sentimentos, mas pela própria loucura e tensão dos tempos.

Polônia

Eu era em boa parte polonês, mas não tinha nascido na Polônia e nem a conhecia. A atração era grande, e sempre achei importante fazer as pazes com o passado, conhecer as raízes. Depois de anos de clandestinidade e de desenraizamento social, sentia uma potente necessidade de normalidade, de ver a realidade pelo prisma do cidadão comum. E havia a imensa curiosidade sobre a organização política e econômica, sobre o socialismo realmente existente.

Do lado da normalidade, fui reconstruindo o meu mundo. Estava de novo com a minha mãe, que encontrei velhinha na Polônia, viva e contestadora como sempre. Ela achava patológica a histeria consumista dos países ricos, e dizia que o comunismo era ótimo porque protegia a Polônia do progresso econômico. As autoridades sorriam confusas. Encontrei também o meu irmão, o Mario, que voltara para fazer a politécnica, casou com uma polonesa e acabou ficando.

Casei com a Fátima, filha de também refugiado Paulo Freire, tão perdida no espaço como eu com os seus sucessivos exílios, mas com uma capacidade impressionante de colocar os pés no chão. Encontrara a minha âncora.

Como falava a lingua, não houve dificuldades. A Polônia me deu um passaporte, conquanto não fosse para uso subversivo. E me deu uma bolsa, que eu complementaria com ensino de linguas em diversos institutos. O caleidoscópio virara outra vez, mais uma vez estava estudando, tentando entender os processos sociais, reconstruir a minha visão do mundo. Em Lausanne havia estudado na visão neo-clássica. Agora, na linha de Oskar Lange, Kalecki e outros, veria a outra metade da laranja.

Fiz o curso superior de planificação nacional, que reunia poloneses, africanos e outros para discutir sistemas de organização econômica. Discutia-se muito as condições específicas do desenvolvimento com oferta ilimitada de mão de obra, as opções por tecnologias de ponta ou alternativas, as experiências da Polônia, da India, dos países árabes e outros. O eixo teórico era fornecido pelos trabalhos de Kalecki. Como já tinha estudado a visão neo-clássica, me impressionou o fato das visões serem mais complementares do que contraditórias. É diferente regular a conjuntura e o curto prazo de uma economia madura, e estruturar as opções de longo prazo de uma economia em construção.

Relia os clássicos, ví que Adam Smith é muito mais progressista do que a caricatura simplificada que dele fez o liberalismo, como Marx é muito mais prudente sobre as alternativas do que o comunismo proclamava. Não era nada na linha do “na prática a teoria não funciona”. Esta solene bobagem, alías, foi bem clarificada pelo planificador Pawel Sulmicki: “Não há nada mais prático que uma boa teoria”. A releitura, que muitos faziam na época, fazia parte do confuso sentimento que os próprios fundamentos teóricos haviam ficado um tanto escorregadios. Todos buscavam reformulações, apesar do establishment acadêmico limitar firmemente tudo que pudesse mexer nos paradigmas. Era como no tempo do poder cristão: podia-se trazer idéias, conquanto fossem aristotélicas.

Espantei-me da riqueza da biblioteca da Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, onde estudava. Encontrei todos os trabalhos de Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Roberto Simonsen e tantos outros, além de obras antigas como a de Antonil. Anos mais tarde encontraria Orlando Valverde na Puc de São Paulo, e comentei com êle o gosto que tive de ler as suas obras em Varsóvia. Comovido, virou para a esposa: “Olha, lá êles lêm obras brasileiras. E quando as nossas universidades terão esta abertura?” Decidi trabalhar sistematicamente a história econômica do Brasil, conhecer os fatos.

Resultou deste trabalho a minha tese de doutorado, A formação do capitalismo dependente no Brasil. Trata-se de um trabalho essencialmente metodológico, um reordenamento dos fatos pesquisados e análisados pelos clássicos, mas no quadro do referencial teórico das teorias de Samir Amin, Christian Palloix, André Gunder Frank e dos autores latinoamericanos ligados à teoria da dependência. A tese foi mais tarde publicada na Polônia, na França, em Portugal e no Brasil. Visto hoje, o seu valor reside essencialmente em fugir das grandes simplificações que apresentam o Brasil ora como pobre vítima passiva do imperialismo, ora como gigante independente. A interação complexa das economias subdesenvolvidas com as economias dominantes é o problema teórico central, que hoje aliás volta com toda atualidade frente à globalização que vivemos.

Certos problemas pareciam não sair do meu pé. A embaixada do Brasil deixou a Fátima sem passaporte, e sem documentos não podia sair da Polônia, sequer para visitar a família em Genebra, onde o Paulo Freire trabalhava no Conselho Mundial das Igrejas. Ao mesmo tempo informaram o governo polonês que ela não era refugiada, e que iam dar-lhe o passaporte, era só esperar os trâmites. Depois de dois anos e meio de trâmites sem passaporte, o governo polonês se convenceu que na prática Fátima era refugiada política, e com base no nosso casamento e no filho polonês, Alexandre, que nasceu em Varsóvia, lhe deu a cidadânia polonesa. Eramos cidadãos outra vez. E eu, como doutor em economia, já não era subversivo: tinha idéias avançadas.

Os tres anos na Polônia tinham sido riquíssimos. Tanto pelos estudos teóricos e da história econômica do Brasil que me permitiram, como pelo conhecimento prático do gigantesco encalacramente burocrático que era esta versão do socialismo. Ao mesmo tempo, descobrira inúmeras soluções extremamente interessantes. As cooperativas de serviços, onde se colocava à disposição de pequenos agricultores formas extremamente descentralizadas e flexíveis de crédito, assistência técnica, comercialização primária, capacidade de estocagem e máquinário alugado, eram funcionais porque geridas pelos próprios camponeses, e constituiam um fator impressionante de produtividade, que contradizia todas as versões das economias de escala. Em compensação, a estatização da agricultura era um desastre.

Quando nasceu o nosso filho, recebemos a visita de uma enfermeira em casa, para ajudar nos primeiros dias os pais de primeira viagem: quantos gastos ulteriores com doenças não se poupam com esta medida simples. Cada bairro tem centros de saúde preventiva, separados dos lugares onde vão pessoas doentes. Isto permite detectar precocemente os mais variados problemas. Para evitar a excessiva urbanização, generalizaram a instalação de centros culturais e científicos nas cidadezinhas do interior, no que se chamou de “deruralização do campo”: reduziu-se o êxodo rural, equilibrando a ocupação espacial do país. Ficou claro para mim que existem inúmeras alternativas funcionais tanto ao burocratismo centralizado como à selvageria liberal: o essencial era pensar as condições institucionais capazes de abrigá-las. Constatei também a que ponto o poder tecnocrático de administradores de empresas estatais podia ser tão amplo quanto o poder tecnocrático de empresas privadas: a propriedade dos meios de produção podia já não ser o elemento essencial.

Foi igualmente importante acompanhar o debate pela mudança da constituição, que permitiu em 1973 a fusão numerosos municípios para torná-los maiores. Aparentemente secundária e administrativa, a medida mudou radicalmente as relações de força ao descentralizar a política. Onde antes um micro-município (gmina) tinha que recorrer ao ministério correspondente para qualquer compra de uma ambulância ou contratação de um policial, agora municípios passariam a resolver os seus problemas localmente. Assim decisões que eram setorizadas e burocratizadas passaram a ser resolvidas com maior participação dos cidadãos interessados, e de forma integrada, com muito mais flexibilidade e eficiência.

No plano teórico, entendera uma coisa importante: Marx apontava para a socialização dos meios de produção como forma de transformar as relações políticas, de permitir uma sociedade sem divisões em classes. Tratava-se assim de uma transformação de relações de produção (infraestrutura) que permitiria uma transformação política (superestrutura) no sentido de uma sociedade democrática e com Estado menos opressor, pois não teria de assegurar o poder de uma classe sobre outra. As sociedades do socialismo dito realmente existente, a começar pela União Soviética, haviam procedido às transformações econômicas, mas não às transformações políticas correspondentes. Os soviets (em russo significa conselho) nunca sairam do papel. Socializar a economia sem democratizar a política é um contrasenso. Seria um capitalismo de Estado, com uma mudança das formas de chegar aos privilégios, não dos privilégios.

De toda forma, começava a ficar claro para mim que o problema não se colocava em termos de alternativas comunismo/capitalismo, privatização/estatização, Estado mínimo/Estado máximo, e sim de busca de articulações capazes de assegurar tanto o dinamismo econômico como os avanços sociais. Nenhum regime, na realidade, estava respondendo a este prosáico e imenso desafio, que continua a dominar a nossa atualidade de fim de século.

Rumo ao Sul

Em 1975, com a derubada do fascismo em Portugal, buscavam quadros para reformular o ensino da economia, desesperadamente atrazado. Atendí a um convite da Universidade de Coimbra. Além da economia do desenvolvimento, ensinaria finanças públicas na Faculdade de Direito. O último titular da cátedra tinha sido um senhor Francisco Salazar. Sucedí-lhe da melhor maneira que pude.

Fiz dois grandes amigos, ambos ministros da economia em períodos do novo regime: Mario Murteira e Francisco Pereira de Moura. Com as amplas discussões sobre o processo de estatização então empreendido, sobre a busca de alternativas de gestão, ficou-me a convicção de que o tempo das soluções simples havia passado. Havíamos constatado isto no final do governo de Allende: de que adianta socializar a propriedade das empresas, se de qualquer maneira elas devem entrar na lógica da interdependência internacional? O conceito tão importante da socialização dos meios de produção precisava ser repensado.

Com pouco mais de um ano, os rumos em Portugal estavam definidos. A opção principal era se integrar na União Européia (então Mercado Comum), e esta opção iria determinar o resto. O primo pobre não estaria evidentemente ditando regras. Os portugueses brincavam: vamos ter casas tipo maison, com janelas tipo fenêtre. Foi eleito Mario Soares, o homem com suficiente credibilidade na esquerda para aplicar um programa de centro-direita, mas o essencial estava ditado nas relações externas, e outro teria provavelmente seguido o mesmo caminho. Já nesta época ficava claro a que ponto a forma de inserção na economia global era mais significativa do que as opções propriamente internas. E as opções internas, de um país escolher o “seu” modelo, tornavam-se cada vez mais limitadas.

Na Argélia havíamos sido todos refugiados, guerrilheiros de diversas partes do mundo. Com o fim do colonialismo português, os amigos do tempo da Argélia eram agora ministros, embaixadores. Uma pessoa amiga e politicamente confiável, com um doutorado em planejamento e estatística, era bemvinda nos novos países independentes. Visitei o ministro de planejamento de Angola, em Luanda, mas acabei aceitando o convite de Vasco Cabral, da Guiné-Bissau. Perguntei-lhe quanto ia ganhar, pois como refugiados andávamos com uma mão na frente e outra atrás. Disse-me que ganharia mais do que êle, o que era uma forma de dizer que seria muito pouco. Mas fomos com gosto. Seriam quatro anos de África, descobrindo outras culturas, outros valores, uma riqueza de relações humanas que não havíamos conhecido ainda.

Tornei-me coordenador técnico do ministério do planejamento. Vasco Cabral, então ministro do planejamento e hoje vice-presidente, me dava todo apoio, com o qual eu não sabia bem o que fazer. Ví-me de repente obrigado a tirar da cabeça todos os modelos matemáticos macro-econômicos que tinha aprendido durante anos, e a buscar propostas que pudessem funcionar. Quando o Banco Mundial veio com propostas para a política educacional, recomendei que fossem rejeitadas. O ministro disse que não tinha problema, mas eu teria que elaborar uma justificativa convincente pois milhares de crianças iam ficar sem escolas. Eu, com ideologia numa mão, e modelos técnicos na outra, encontrava-me pouco equipado para a economia realmente existente.

Foram quatro anos apaixonantes, e cada coisa que dava certo trazia uma imensa felicidade, de ver algo concreto funcionando. Coordenei a elaboração técnica do primeiro plano nacional de desenvolvimento, aprendendo a cruzar sistemas de crédito com políticas regionais, a articular políticas setoriais, a levar em conta as resistências políticas, os interesses ou vaidades pessoais, uma série de elementos sem os quais nenhuma proposta existe, por mais fundamentada que seja em termos técnicos. A economia é o sangue de uma sociedade, e tudo nela influi. Não há matemática que substitua aqui o bom senso, uma cultura ampla e de múltiplas facetas, a capacidade de entender, de ouvir, de sempre aprender. E sobretudo a capacidade de gostar, de se interessar.

Eu falava muitas linguas, tinha um bom doutorado técnico, bons relacionamentos políticos, ainda que só na esquerda, e não tinha medo de enfrentar regiões de grande pobreza. Abdulrahim Farah, sub-secretário geral da ONU, a quem eu ajudara a elaborar alguns relatórios para Kurt Waldheim, convidou-me para ocupar em Nova Iorque o posto de economista do gabinete do Secretário Geral, substituindo o economista inglés James Ilett que se aposentava. Vasco pediu-me para ficar, e fiquei. Teria possivelmente me tornado um bom burocrata de nível elevado, mas teria seguramente esterilizado o gosto pelo meu trabalho. Chegamos a um compromisso, pois Vasco me colocou na direção do programa de planejamento da ONU em Bissau. Fiquei fazendo a mesma coisa, só que com salário internacional. Visitando Farah em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, ele me apresentou aos amigos: esta é a pessoa que recusou vir trabalhar conosco porque tinha um compromisso em Bissau. Os sorrisos respeitosos deixavam claro que me achavam um caso curioso.

No fim de quatro anos tinha perdido boa parte do fígado com hepatite, boa parte da audição com cloroquina para combater os ataques de malária, e vários amigos com o golpe de Estado. Considerei que dera a minha parte e aceitei um outro posto em Nova Iorque, de assessoria na área de problemas políticos especiais, que na realidade tratavam de paises de pobreza crítica. Estávamos em 1980, e Reagan tinha acabado de assumir, nomeando uma fanática de cultura limitada, Jane Kirkpatrick, representante americana junto às Nações Unidas. Desembarquei no aeroporto John Kennedy, com passaporte da ONU e o convite formal de Kurt Waldheim para assumir o meu posto. Não me deixaram entrar. Fiquei tres dias no saguão reservado do aeroporto, uma imensa sala onde ficam casos indeterminados. Tampouco me deixaram conversar com a ONU, ou embarcar de volta para Portugal de onde estava vindo. O então embaixador do Brasil junto à Onu, hoje respondendo por tráfico de dólares, passara uma ficha ampla para Jane Kirkpatrick, dizendo nem mais nem menos que eu era um assassino, que os meus diplomas eram falsificados, além de todo o folclore montado nos relatórios do então SNI.

No fim de tres dias autorizaram o meu embarque para Europa. Na saída, pude ver a Fátima, que já mudara para Nova Iorque em função do novo posto e acabara de ter o nosso segundo filho, André. Pudemos trocar algumas palavras, e passei para ela num saquinho plástico, entre dois guardas, a parte que me cabia elaborar do relatório de Kurt Waldheim para a Assembléia Geral deste ano, e que ela entregou ao subsecretário geral no dia seguinte. Dias depois, por telefone e já na Europa, Gordon Goundrey, canadense e secretário geral adjunto, me explicava: não estamos entendendo nada, Kirkpatrick está ameaçando a todos, estão dizendo que vão cortar os fundos, expulsar os subversivos. Lamentamos…

Seguí o conselho de Paulo Freire, que me disse que já era tempo de voltar ao Brasil. Fátima embarcou de Nova Iorque, eu da Europa, e passamos a morar em São Paulo, no apartamento do Paulo junto à Puc. Moví um processo administrativo às Nações Unidas, ganhei, constataram que as acusações eram falsas, e me reincorporaram. Por telefone, o mesmo Gordon Goundrey me informava que a condição informal era que eu não pedisse para trabalhar nos Estados Unidos. Agradecí e fui trabalhar na Puc de São Paulo. O caleidoscópio girava outra vez.

A volta

Acho que a volta não foi fácil para ninguém. Claro, havia as flores na volta, mas não é disso que vive o homem. Todo o caminho tem de ser reconstruido, passo a passo, num meio e numa cultura para a qual somos um pouco estranhos. Olhava para a imensidão de São Paulo, e pensava na imensidão do que tinha de reaprender. A nova geração de economistas brasileiros não me conhecia, e tampouco eu conhecia eles. O Ministério da Educação, por recomendação do SNI, levaria sete anos para autorizar a USP a reconhecer o meu diploma. Ninguém reconheceu os anos que Fátima estudou no instituto de Piaget em Genebra, na Universidade de Varsóvia e em Coimbra: teve que começar no primeiro ano, perdoaram apenas o vestibular.

A Puc me recebeu bem. Carmen Junqueira, com o atrevimento das baixinhas, abriu-me caminho. Paul Singer fez o parecer sobre a minha tese, a comissão geral de pós-graduação aprovou o parecer, e fui aprovado como professor, sem esperar nenhum ministério. Eu, preocupado, olhava as poucas certezas teóricas que me haviam sobrado, e me perguntava o que iria ensinar. Entrei no programa de pós-graduação em administração, e pouco depois fiz o concurso para o departamento de economia. Fui me entrosando, fazendo amigos. Descobri uma complementaridade impressionante entre o conhecimento de situação internacional que eu adquirira, e a desesperadora carência deste tipo de informação entre os alunos. Dividia os meus cursos em exposições deles e exposições minhas. Ensinava a utilizar os relatórios internacionais, desenvolvimento econômico comparado, a economia das multinacionais. Os meus alunos me ensinavam que no Brasil “ou você faz parte do rolo compressor, ou faz parte da estrada”; que no mercado de capitais “ou você é de dentro e ganha muito dinheiro, ou é de fora e é depenado”; que “no Brasil vender a prazo é muito simples: o consumidor não entende nada de matemática financeira” e assim por diante. Pela segunda vez, o Brasil me reabsorvia e digeria na sua riqueza cultural, humor, ironia e desespero. Na Suiça, você luta desesperadamente para se entrosar; no Brasil, para não ser deglutido.

Um dos que me ajudaram logo no início foi Caio Graco, da Brasiliense. Eu me dera bem com o seu pai, Caio Prado Júnior, em Paris. Os militares sempre foram grandes fazedores de amigos. Editou o meu livro sobre a história econômica do Brasil, e em seguida um livro teórico que eu escrevera em Portugal e que tinha interessado muito Samir Amin, que o utilizava nos seus cursos: Introdução teórica à crise: salários e lucros na divisão internacional de trabalho. 

Marx abordara o capitalismo do seu tempo tomando como unidade de análise a nação, no caso a Inglaterra. Para os países em desenvolvimento, esta visão deformava a análise, pois predominavam na formação das estruturas econômicas e das relações de produção as determinações externas. De certa forma, dominadas pelas economias desenvolvidas, as economias pobres eram mundializadas antes do tempo. Analisar estas economias aplicando os esquemas de repodução do capital à nação, para depois acrescentar as trocas externas, constituiria um erro teórico. Procedí portanto, a partir de várias formas de apresentação dos esquemas de reprodução do capital, a recalcular como seriam as equações se fossem incluidas as trocas internacionais nos próprios esquemas. A lógica tornou-se evidente: o Brasil, por exemplo, poderia manter a escravidão em pleno final do século XIX e os trabalhadores na extrema miséria pois precisava deles como produtores, não como consumidores, na medida em que o ciclo de comercialização se dava através de troca com produtos ingleses. Assim não era necessário inventar nenhum modo de produção colonial ou outro para explicar o que era simplesmente um subsistema diferente de acumulação capitalista, cuja lógica não se esgotava no nível nacional. De certa forma, era uma continuação da minha tese de doutorado, permitindo-me avançar em certos problemas teóricos que tinham ficado mais claros.

O livro não suscitou grande entusiasmo. O Caio Graco, frente a este trabalho relativamente complexo, me disse que se eu não conseguisse dizer o que tinha a dizer em 50 páginas, era melhor esquecer. Estava então lançando a coleção Primeiros Passos, que teria tanto sucesso. Aceitei o desafio, e fui traduzindo ao português o que havia escrito no chamado economês. Descobri que não havia grandes dramas. Dizer que o Brasil tem um coeficiente de Gini de zero vírgula alguma coisa pode ser dito de forma simples: os 10% das famílias mais ricas do país absorvem mais de 50% da renda do país, o que o torna o país mais injusto do mundo na avaliação do nada subversivo Banco Mundial. Descobri que as análises econômicas não precisam ser complicadas. Ou melhor, têm de ser complicadas quando se trata de justificar o injustificável, mascarar a realidade. Um país onde 1% de proprietários detém metade do solo agrícola, cultivando menos de 5%, não exige grandes teorias para mostrar que a causa de tanta fome num país de tantos recursos naturais se deve simplesmente à grande fortuna dos especuladores fundiários. Escreví a Formação do Terceiro Mundo, que foi incluido na coleção Tudo é História da Brasiliense, e tornou-se um livro de leitura generalizada no Brasil, apesar do tema relativamente árido. Descobria que não basta estudar: é preciso comunicar, e aprender a comunicar. Recentemente um aluno da Puc me disse que gostava do que eu escrevia. Quis saber a razão, esperando algum comentário teórico. Me disse simplesmente: “É que eu entendo…”

A massa de coisas que havia aprendido na África, fazendo economia aplicada, ou realmente existente, me ficara rodando na cabeça. Decidí escrever Guiné-Bissau: a busca da independência econômica, livro com diversas fragilidades teóricas, mas que trazia uma experiência em primeira mão. É um destes livro que terminam sendo mais importantes para o autor do que para o leitor, ainda que circule bastante nos chamados países africanos de expressão oficial portuguesa.

O livro me permitiu explicar coisas práticas que raras vezes vão para o papel. Exemplo: a empresa holandesa HVA tem para vender o equipamento de uma grande usina de produção de açucar. Envia para Bissau uma equipe técnica, que produz rapidamente tres grossos volumes demonstrando que o país precisa exatamente de uma usina de açucar deste porte, ainda seja absurdamente sobre-dimensionada. Informam ao ministro de agricultura que a HVA tem suficiente músculo no governo holandês para obter o financiamento da fábrica sob forma de ajuda internacional, conquanto que o governo lhe peça formalmente a usina. Com o pedido na mão, a HVA pressiona membros “amigos” do governo holandês, segundo mecanismo que nos é familiar, e a Holanda termina por conceder uma ajuda de x milhões à Guiné-Bissau, não para fazer o que lhe parecer mais necessário, naturalmente, mas para comprar o equipamento holandês. Isso se chama “ajuda vinculada”. A Guiné ganha um monstro desajustado que pesará permanentemente nas contas públicas pelo déficit gerado. O dinheiro nunca sai da Holanda porque é simplesmente transferido para a HVA. A HVA fica com o lucro da operação. O governo holandês ganha votos ao publicizar a sua generosa ajuda aos países pobres. Pagam o povo holandês que contribuiu com impostos, e o povo da Guiné que terá que ssustentar mais um elefante branco. E a empresa, naturalmente, continuará a cantar loas aos mecanismos de mercado, e a dizer que os males vêm do Estado.

A Guiné-bissau poderia recusar: mas é difícil recusar um presente que gerará empregos, sobretudo quando grupos internos clamam, por interesse próprio, que é interessante. Dá para apresentar cálculos de custo-benefício em comício político? No caso, a operação foi suspendida porque o Ministério de Relações Exteriores da Holanda mandou investigar e, apoiado por Vasco Cabral, abortou a operação. Mas dezenas de outras funcionaram, algumas com intermediários brasileiros, desarticulando a economia. Como no caso de outros países pobres, compra-se o que os ricos estão dispostos a financiar, e não o que o país precisa. A dependência gera dependência, a pobreza gera pobreza.

Animado pelo sucesso da Formação do Terceiro Mundo, lancei-me na definição de alguns conceitos básicos de economia, no pequeno livro O que é capital? que saiu na coleção Primeiros Passos. O livro foi bem sucedido, sendo inclusive vendido nas bancas de jornal numa co-edição especial com a Editora Abril. Mas até hoje não me sinto confortável com o livro, que na realide me forçou, no processo de sistematização, a entender deficiências na minha própria compreensão dos processos. Recentemente, folheando arquivos, descobri uma antiga resenha do livro publicada na Isto é: era assinado pela Zélia, ela mesmo. Isto só fez aumentar a minha desconfiança. De toda forma, tal como O que é mais valia? de Paulo Sandroni, trata-se de um útil caminho de entrada para compreender alguns conceitos básicos.

Nicarágua, Nicaraguita

Em 1986, o governo da Nicarágua me convidou a assumir um projeto das Nações Unidas, semelhante ao que tinha dirigido na Guiné-Bissau, só que mais amplo, de apoio à estruturação de mecanismos de planejamento e regulação econômica. Voltava assim às Nações Unidas, mas num contexto que me agradava. Fizemos as malas. Além do Alexandre já adolescente, iam o André, o Bruno e a Sofia. Com exceção do Alexandre um pouco mais moreno, todos desesperadamente loiros.

Quem já visitou a Nicarágua sabe o que é um choque cultural. Povo alegre, corajoso, arrojado, bagunçado, surrealista. Não há adjetivo que não se adapte. Enquanto esperava uma mala perdida no aeroporto, um menino conversava comigo sobre o Brasil, cheio de curiosidades. Tudo o que eu dizia o deixava espantado: “Ála…” exclamava. Levei poucos dias para entender que se tratava não de expressão religiosa mas de uma abreviação do comentário favorito dos nicas sobre qualquer coisa surpreeendente: “A la gran puta…” E era um país cheio de surpresas.

A Secetaria de Planificación y Presupuesto era vinculada à presidência, e me concentrei no que um assessor em planificação faz de mais útil: organizar informação e formar gente. Ambos deixam resultados permanentes, pois melhoram a capacidade própria de decisão dos quadros locais. Tive que mergulhar fundo na informática, que não era do meu tempo. É um sentimento estranho sentir-se analfabeto quando se está perto dos cinquenta anos. Espantava-me com o potencial das novas ferramentas, que para um economista seriam o que uma Ferrari é para outros. Poder trabalhar, estocar, articular, cruzar das mais variadas formas e quase instantaneamente qualquer informação já era, nesta época do XT, um fenômeno cuja dimensão revolucionária era clara. Tornava-se mais claro para mim o prodigioso aceleramento da história que estava se generalizando.

Foram dois anos úteis e inúteis. Vibrava com a eletrificação de uma região isolada, para ver no dia seguinte as instalações destruidas pela Contra que operava a partir de Honduras, com homens equipados nos últimos gadgets militares como marcianos, recebendo dos sofisticadíssimos aviões de observação de grande altitude dos norte-americanos indicações detalhadas sobre cada objetivo, e protegidos nos seus acampamentos do outro lado da fronteira. Estas bases eram aliás hipermercados militares, com tudo que é equipamento, bordéis, lazer, e evidentemente os salários, que depois se saberia que eram financiados com tráfico de drogas, como no Vietnã. A democracia do mais forte é sempre mais democrática.

Recebí a visita de um grupo de humanistas norte-americanos, que estavam indignados que, com as imensas necessidades do país e a miséria do povo, o governo nicaraguense estava recusando a sua ajuda médica. Os americanos são realmente fantásticos. Bombardeiam, matam e ferem, e sem seguida mandam esparadrapo e medicamentos. E se exasperam quando os feridos os olham irritados. Duas facetas do mêsmo país.

Na realidade, era um jogo de sombras, um tipo de Adeus minha concubina. Os americanos formalmente não existiam, diziam que o governo nicaraguense tinha de reclamar com oscontras, essencialmente velhos assassinos de Somoza. O governo respondia que não queria conversar com os palhaços, mas como o dono do circo, no caso o governo americano. Ninguém conversava. Neste contexto, o esforço de desenvolvimento econômico se tornava folclórico, pois a própria poupança que o país conseguisse penosamente reunir ia embora no esforço militar. E uma economia é absolutamente indefensável quando alguns milhares de profissionais armados com explosivos e meios de comunicação os mais modernos podiam destruir o que quisessem quando quisessem, e se refugiar do outro lado da fronteira. E se o exército os perseguisse, seria um prato cheio para os americanos: os nicaraguenses estariam invadindo um outro país.

Havia alternativas, como o sistema de desenvolvimento totalmente descentralizado e extremamente participativo que foi instaurado na região de Estelí. O Banco Nacional de Desarrollo, por exemplo, em vez de conceder créditos através de distantes burocracias em consulta com a capital, criou conselhos municipais de crédito, onde pequenos e grandes proprietários, diversos atores sociais, decidiam da otimização dos recursos. Se um agricultor recebesse dinheiro pra comprar gado e em vez disso especulasse com divisas, na reunião seguinte alguém colocaria a pergunta: onde está o gado, não o ví no campo? O conhecimento direto das situações constitui um elemento poderoso de gestão simples e flexível. Mais tarde constataria que na China, um setor público relativamente amplo é gerido também de forma muito descentralizada, pelos municípios, o que permite controle direto dos cidadãos.

Mas no conjunto, os dirigentes sandinistas acreditavam que eram donos do poder, e faziam de cima o que seria bom para o povo. O povo lá em baixo, naturalmente. Não se pode generalizar, e uma série de líderes trabalhavam no sentido de uma democratização efetiva. Um Jaime Wheelock, na agricultura, para dar um exemplo negativo, acreditava que agricultura só existe de mil hectares para cima, e que os camponeses tinham mais é que obedecer. Na realidade, não havia espaço político sequer para a definição de uma estratégia coerente de desenvolvimento. A pressão constante da guerra reforçava a centralização das decisões, desarticulando o sistema. O que permitia aos inimigos declarar que o sistema não funciona.

A questão das condições políticas e institucionais do desenvolvimento econômico tornara-se o centro das minhas preocupações. As economias de mercado vizinhas, por exemplo, como Honduras ou Guatemala, eram e continuam sendo um caos. Na Nicaragua o Estado geria salões de beleza, porque haviam sido de Somoza e os bens de Somoza haviam sido estatizados. Um sistema é mais socialista porque salões de beleza estão na mão do Estado? Entendia cada vez mais que as simplificações ideológicas não funcionavam, e que os subsistemas que compõem a economia haviam se diferenciado demais para se poder aplicar políticas lineares não diferenciadas. Acabara o tempo em que a sociedade era dividida em proletariado, camponeses e burguesia, os problemas eram de âmbito nacional, e tudo se resumia na luta de classes. Era preciso buscar outros modelos.

Antes de sair de Manágua, visitei uma pessoa muito amiga, represente das Nações Unidas na Nicarágua, um holandês humanista e muito culto, hoje falecido. Enquanto conversávamos, folheava um desses belíssimos livros americanos de turismo, cheio de fotos de lagos e montanhas. Mostrei-lhe uma foto de página inteira, pequenos barcos com suas velas brancas no meio de um lago, na margem crianças andando pacíficamente de bicicleta, a inevitável igrejinha ao fundo. Nós na Nicarágua contabilizávamos diariamente os mortos, os doentes, os dramas políticos. Ambos chegamos à mesma reflexão, pela força do contraste: como é que pessoas vivendo neste ambiente nos Estados Unidos poderiam entender, ou imaginar, o que é o subdesenvolvimento?

Gerações

Fui visitar o meu pai, no Maranhão. Em 1964, quando eu estava em Israel, cansou das hierarquias desconfiadas do mundo empresarial, mandou um diretor-presidente publicamente à merda, com a indenização comprou um barquinho, e ficou dois anos viajando pelos rios da Amazônia. Tinha 64 anos e descobrira um novo mundo. Comprou uma casinha na beira do Tocantins, numa vila de 30 casas, sem eletricidade, telefone nem autoridade. Chegava-se pela água. Descobriu que as pessoas morriam de qualquer coisa, acionou as seus velhos amigos da Europa, recebeu medicamentos, conseguiu uma autorização de prático de medicina, e passou a tratar os vizinhos. Com pouco tempo tinha mais de mil familias cadastradas. Engenheiro é engenheiro. Parou de morrer gente na região. A cada seis meses as crianças recebiam um vermífugo polivalente: para que análise, dizia, aqui todo mundo tem verme…

Entusiasmou-se, facilitou o caminho para empresas interessadas em investir na região. Com pouco tempo chegou a tropa para desarmar os camponeses, levar espingardas, facões. Os camponeses já sabiam, logo viriam expulsá-los. Um vizinho matou um sargento, fugiu e nunca mais apareceu. Os soldados voltaram, pegaram a filha, judiaram e mataram. O essencial era mostrar quem era a autoridade. Meu pai passou anos tentando convencer a mãe a denunciar o crime, mas ela dizia simplesmente que não podia arriscar os outros filhos. O velhinho comprou material, mapeou a região, delimitou as posses, foram em massa registrar em cartório, salvando as roças. Meu pai virou guru de vez, ainda que guru de um fim de mundo.

Uma noite me chamaram para uma reunião da comunidade local. Uma freirinha franzina explicava a bíblia. Um dos poucos alfabetizados leu a parte onde José, no Egito, se mostrou tão bom administrador: quando os camponeses perderam a safra, e pediram grãos ao Faraó, José abriu os graneiros, mas em troca do gado dos camponeses; no segundo ano de má safra, fez o mesmo em troca das terras, e no terceiro ano em troca dos próprios camponeses. Estou seguramente errando a ordem ou o conteúdo das trocas, mas o essencial é o seguinte: os camponeses perderam tudo, o Faraó ficou mais rico, e o José virou um grande político. Com sua voz mansa, a freira explicava que a bíblia era um espelho, e que neste espelho do passado tínhamos de aprender a ler o presente. Os camponeses da vila não se fizeram de rogados: um por um começaram a falar como tinham sido expulsos das suas terras, como fazendeiros tinham queimado as suas roças. No dia seguinte, descendo pelo rio Tocantins, no silêncio e tranquilidade da madrugada – já tinha se esgotado o meu tempo e precisava voltar para São Paulo – fiquei pensando comigo mesmo: isto não sai nos jornais, e no entanto, milhares de pessoas no país fazem este trabalho de formiga, ensinando direitos humanos, dignidade, gerando um fundo de consciência onde amanhã poderão brotar mudanças mais profundas.

Fiquei impressionado com meu pai. Primeiro, porque ele sempre tivera posições relativamente quadradas em termos políticos, e apoiara o golpe militar porque acreditava que iria acabar com a corrupção. Claramente, dera agora uma profunda guinada política: vivendo com pobres, tinha descoberto como era o mundo visto por baixo. Já sabia um pouco desta guinada, pois ele escrevera lindas cartas para minha mãe, na Polônia, explicando a sua nova compreensão das coisas. Acho uma grande coisa um homem de mais de 60 anos de idade rever profundamente os seus valores, reconstruir a sua visão do mundo. E isto mostra a que ponto as nossas posições políticas, que podem nos parecer tão óbvias e racionais, são influenciadas pela forma como estamos inseridos no mundo.

Me impressionou também a capacidade de, nesta idade, mandar às favas os confortos e honrarias de senhor engenheiro, para reconstruir uma vida útil a partir do zero, vida nova que duraria quase trinta anos. Na cidade, seria um aposentado sentado na sala de espera. No Maranhão, não conseguia sequer gastar a sua magra aposentadoria, trabalhava, ajudava, vivia. E não era sacrifício nenhum: vivia à beira de um rio maravilhoso, pescava quando queria, na frente da sua casa não passavam carros barulhentos e pessoas irritadas, passavam colhereiros. Tomei consciência, mais do que nunca, da idiotice da nossa correria desesperada para comprar coisas inúteis, enquanto desperadiçamos o único recurso não renovável: o tempo.

Morreu com 92 anos, viveu a vida com sobremesa e tudo, ainda que fosse sem geladeira nem televisão. No último ano de vida, mudou para Imperatriz, estava muito fraco. Bom contador de histórias, sentava num banquinho frente à casa, e lia nas mãos das moças o seu destino. Não há mulher que resista a que se lhe leia o futuro. E não há homem sério, nem mesmo em idade avançada.

Foi-se o velhinho, fora-se a minha mãe, na Polônia, alguns anos antes. Terei levado quase cinquenta anos para descobrir a que ponto as nossas raízes são profundas. Não é preciso ser oriental nem acreditar na reincarnação para entender a força da continuidade da vida.

Prefeitura

Mal desembarcara da Nicarágua, fui convidado pela nova prefeita Luiza Erundina para assumir as relações externas da prefeitura, e depois a Secretaria de Negócios Extraordinários. A impressão dominante é a seguinte: uma gigantesca máquina burocrática, de 100 mil funcionários, herdada basicamente dos tempos da ditadura, e voltada para gerir privilégios e corrupção. De repente, uma mulher indiscutivelmente digna, honesta e batalhadora, tenta inverter o sentido da máquina, e fazê-la servir a cidade. Um desafio e tanto. Para mim, foram quatro anos de aprendizagem sistemática de como se articulam os dramas dos transportes, do lixo, da água, da habitação, da saúde, da educação e outros num espaço como São Paulo. Porque a gente trabalha, mas sobretudo aprende.

São Paulo conta hoje 30 assassinatos por dia, um milhão de pessoas vivendo em favelas, mais de dois milhões em cortiços, poluição generalizada das águas que um dia nos serão indispensáveis, 12 mil toneladas de lixo por dia depositadas ao Deus-dará, sem que ninguém se preocupe com o futuro das filtrações nos lencóis freáticos. São 4 milhões de automóveis, uma cidade que conseguiu se paralizar…por excesso de meios de transporte. O metró, solução de longo prazo evidente para cidades deste porte, ostenta os seus ridículos 40 quilómetros. É também uma gigantesca bacia, de 30 por 50 quilómetros, com dois terços impermeabilizados, porque ninguém pensou em assegurar a suficiente permeabilidade do solo, como o fazem outras cidades do mundo. Dez milhões de pessoas olham passivamente todo verão as enchentes quase permanentes, sentadas pacientemente nos carros parados, carros que aliás são construidos para poder andar a mais de 150 quilómetros por hora. O maior centro econômico da América Latina, gerido pelo eterno triângulo de empreiteiras, especuladores imobiliários e políticos corruptos, num negócio milionário que permite financiar amplamente as campanhas políticas que reproduzem o sistema. O discurso, naturalmente, é cheio de democracia e progresso.

As pessoas mal se davam conta da importância das relações internacionais para uma cidade. Shanghai, onde estive para discutir estratégias de grandes metrópoles, tinha em 1992 cerca de 140 técnicos no seu departamento de relações internacionais. As cidades de Osaka no Japão, de Toronto no Canadá, para mencionar algumas, têm intensas atividades internacionais. Não é uma coisa secundária que envolve troca de “chave da cidade” e outros agrados diplomáticos. É no relacionamento direto entre cidades concretas que se tece o sistema de trocas de nível horizontal que caracteriza a gradual evolução do mundo dos sistemas verticais de pirâmides autoritárias para o sistema de redes horizontais interativas. Porque existem tecnologias novas que revolucionaram as comunicações, e porque o mundo deixou de ser caracterizado por populações rurais dispersas, para se tornar urbano. Hoje qualquer prefeito de cidade relativamente importante tem equipes técnicas que viajam para diversas partes do mundo para ver quem está resolvendo de que maneira problemas de poluição, de criminalidade, de transporte, de organização da saúde e assim por diante. Os desafios são semelhantes, e é preciso aprender a aprender com os outros, em vez de reinventar a roda. É da profunda desinformação brasileira sobre políticas municipais modernas que resultam visões de que transporte se resolve abrindo túneis e construindo viadutos para automóveis particulares, ou de que a criminalidade se reduz comprando mais armas e viaturas. O potencial deste enfoque de cooperação internacional descentralizada foi resumido no artigo Autonomia local e relações internacionais, que circulou amplamente na América Latina, em particular através da revista Nueva Sociedad

De certa forma, trata-se de reconstruir as implicações, em termos de gestão de políticas econômicas e sociais, das revoluções tecnológica e demográfica que estão mudando o planeta. E nesta reconstrução, fiquei cada vez mais convencido, o município, o poder local, têm um papel fundamental. Resultou destas reflexões um pequeno livro que escreví junto com um grupo de técnicos do Cepam, chamado Introdução ao Planejamento Municipal, editado também pela Brasiliense. À medida que evoluía o meu trabalho na prefeitura, fui escrevendo trabalho pequenos, simplesmente porque o tempo era pouco. No fim da gestão, retomei aIntrodução do Planejamento Municipal, simplifiquei, reformulei, e o resultado foi publicado sob o título de O que é poder local?, na coleção Primeiros Passos.

Ia amadurecendo a minha visão do papel estratégico da política e das instituições situadas no nível onde a população pode ter um controle efetivo dos processos. Trata-se evidentemente de uma possibilidade, e não de garantia. Mas os longos anos que passara ajudando a montar sistemas centrais de planejamento e de regulação econômicos em diversos países, me fizeram entender a que ponto as estruturas centrais de governo, se não há uma “âncora” de poderes locais solidamente organizados, para pressionar por resultados e exigir adequação com as suas necessidades, passam a ser dominadas por um absurdo carnaval de pressões de empreiteiras, grupos organizados de corrupção, cirandas de banqueiros, subsídios de usineiros e outras manifestações que conhecemos bastante. De certa forma, o governo central não se equilibra de dentro, precisa ter um contrapeso e um controlador externo.

Em outros termos, o conceito de divisão de poder entre executivo, legislativo e judiciário já não é suficiente: precisamos de um lastro político de sociedade civil organizada, em torno dos espaços locais, que é onde finalmente a população mora e pode constatar se há ou não progresso real em termos de qualidade de vida. Numa missão que realizei na Costa Rica, para as Nações Unidas, constatei que os municípios alí decidem sobre o uso de apenas 5% dos recursos públicos. Analisando o sistema de gestão da Suécia, constatei que esta proporção é de 72%. Em outros termos, a Suécia não se caracteriza por ter menos Estado, e sim por seu Estado funcionar essencialmente na base, com controle direto da própria população. E como as necessidades básicas da população são de nível local, como a escola, o médico para a família, a condução, o pão e o leite, a segurança e assim por diante, tratava-se de pôr a pirâmide de pé, porque entre nós ela se equilibra precariamente na ponta.

A experiência de gestão progressista em São Paulo me fez ver de maneira muito mais clara o gigantesco potencial das formas descentralizadas de administração pública. Mudanças desta profundidade não se realizam, é claro, em quatro anos e numa prefeitura apenas. Hoje no Brasil este processo progride sistematicamente, em particular no Rio Grande do Sul, ainda que o tradicional triângulo empreiteiras-especuladores imobiliários-políticos fisiológicos predomine amplamente. O surgimento de sólidas alternativas, e que dão certo, às políticas tradicionais leva em geral a dreita a se unir para bloquear as experiências. Mas isto faz parte do jogo. E é importante notar como através do paciente trabalho de numerosas pessoas, particularmente na área do Partido dos Trabalhadores e do PSB, está gradualmente emergindo uma visão de gestão social profundamente renovadora. Hoje, já são centenas de experiências dete tipo em curso no país, apesar da centralização ainda amplamente dominante.

Áreas de pesquisa em desenvolvimento

Não cabe aqui, e o espaço não permite, reproduzir propostas teóricas que se encontram em numerosos textos, publicados e em elaboração. Mas como se trata de traçar um pefil científico, vale a pena dar uma visão da lógica do conjunto. Trata-se de uma busca sistemática de caminhos. Na realidade, as nossas premissas de análise estão sendo transformadas, criando um contexto por um lado extremamente rico de renovação teórica, e gerando por outro lado grande insegurança. Como escrevia Dante na Divina Comédia: “La diritta via era smarrita”, o caminho reto havia desaparecido.

Nos últimos anos, tive mais tempo para pesquisa. Sistematizei o ponto de partida, que são os grandes eixos de mudança em curso. Estas mudanças, refletidas em particular na revolução tecnológica, na globalização, na dramática polarização mundial entre ricos e pobres, na urbanização generalizada do planeta, e na transformação das relações e organização do trabalho, nos colocam novos desafios.

Cada uma destas tendências traz imbutida uma contradição central. As tecnologias avançam rapidamente enquanto as instituições correspondentes avançam lentamente, e esta mistura é explosiva, pois não conseguimos manejar de forma responsável as tecnologias de impacto planetário de que dispomos. A economia se globaliza enquanto os sistemas de governo permanecem sendo de âmbito nacional, gerando uma perda geral de governabilidade. A distância entre pobres e ricos aumenta dramaticamente, enquanto os planeta encolhe e a urbanização junta os polos extremos da sociedade, levando a convívios contraditórios cada vez menos sustentáveis. A urbanização deslocou o espaço de gestão do nosso cotidiano para a esfera local, enquanto os sistemas de governo continuam na lógica centralizada da primeira metade do século. Finalmente, o mesmo sistema que promove a modernidade técnica gera a exclusão social, transformando o mundo numa imensa maioria de espectadores passivos que estão se cansando de se maravilhar com as novas tecnologias surgidas, enquanto se perde de vista a solução dos problemas mais elementares.

A conclusão que tiramos desta visão de conjunto, ou destes cinco eixos contraditórios, é que a humanidade precisa urgentemente de puxar as redeas sobre o seu desenvolvimento, e dotar-se dos instrumentos institucionais capazes de efetivamente capitalizar os avanços científicos para um desenvolvimento humano. Repetir os dogmas liberal e estatista no enfoque tradicional não nos ajuda muito.

Os objetivos gerais são hoje claros. Precisamos de um desenvolvimento socialmente justo, economicamente viável e ambientalemente sustentável. Dividir estes objetivos entre o Estado que executa politicas sociais, as empresas que produzem, e as organizações não governamentais ou comunitárias que batalham objetivos ambientais e o esparadrapo social para minimizar as tragédias, cada um puxando para o seu lado, nos traz à mente aquele desenho dos burros que tentam cada um alcançar o seu monte de capim, puxando em sentidos contrários em vez de comer juntos cada monte. A diferença é que aqui os burros seriam tres. Podemos, naturalemente, e segundo as nossas posições ideológicas, ter cada um uma opinião diferente sobre qual dos burros é o culpado. Mas isso não alteraria o resultado final.

Há um cansaço geral quanto às “arvores de natal” ideológicas, que nos prometem de um lado, com estatização e planejamento, a tranquilidade social, e de outro, com privatização e mão invisível, a prosperidade. A primeira nos deu um gigantesco encalacramento burocrático, a segunda nos levou à mais dramática acumulação de injustiças sociais que a humanidade já conheceu e a um sentimento permanente de insegurança. Aqui não há vencidos nem vitoriosos. Por enquanto, a vencida é a própria humanidade. Trata-se de buscar um pragmatismo democrático que nos permita efetivamente enfrentar os problemas.

Partindo desta plataforma de análise das mudanças, fui desenvolvendo pesquisas em várias áreas concretas de atividade econômica e social. De certa forma, trata-se de reconstruir as implicações das mudanças em diversas áreas científicas, testando assim a própria análise das mudanças que serviu de ponto de partida.

Um eixo de pesquisa é o da educação, onde fui penetrando por estímulo de Paulo Freire, e de Fátima, que hoje trabalha com orientação pedagógica. Depois de uma primeira incursão com o prefácio a um trabalho de Martin Carnoy sobre o Estado e a Educação, publicado pela Cortez, tentei fazer uma ponte entre economia e educação no livro Aspectos Econômicos da Educação, publicado pela Ática. O caminho foi se enriquecendo, levando ao estudo Espaços do Conhecimento, publicado por Miguel Chaia no São Paulo em Perspectiva, com versão expandida publicada em coletânea organizada por Lúcia Bruno, na editora Atlas. A proposta, de forma geral, é de que necessitamos articular os diversos espaços que trabalham com conhecimento, integrando desde televisão até educação comunitária e redes informáticas num novo paradigma educacional. Isto por sua vez exige uma renovação profunda do contexto institucional da educação. Manoel Moran, Myrtes Alonso, Arnoldo Hoyos, Marcos Masetto, Ubiratã D’Ambrósio e outros são companheiros desta viagem, que já não pode se limitar a educadores.

Outro eixo de pesquisa resultou dos meus trabalhos no quadro da Unicef, que já datam de alguns anos, cruzados com as ríquissimas experiências da equipe de David Capistrano na prefeitura de Santos. Trata-se básicamente de avaliar o imenso potencial que a integração das políticas no nível local permite. Numa reunião de organizações que lidam com a criança de risco em Santa Catarina, foi apresentado o relatório do Ministério Público sobre como estavam conseguindo multar empresas que utilizavam trabalho infantil, e assegurar que contratassem apenas adultos. Em seguida, a secretaria do trabalho informava como estava conseguindo tirar crianças da rua dando-lhes emprego. Cada instituição obtém a sua satisfação burocrática, e a criança fica presa neste ping-pong institucional que a coloca na mão dos traficantes de droga, das empresa de prostituicão infantil, dos carvoeiros e outros. Santos reconstruiu as políticas relativas à criança a partir da criança, num enfoque organizado por resultados, recebendo inclusive um convite especial para apresentar a experiência na conferência mundial de Istanbul. Esta tendência está abrindo espaços em diversas partes do mundo, gerando o chamadomovimento dos prefeitos amigos das crianças (Child Friendly City Initiative) articulado por Ximena de la Barra da Unicef, e refletida no programa Prefeito-criança da Fundação Abrinq no Brasil. Trata-se simplesmente de prefeitos que decidiram não esperar as “grandes políticas” e as primeiras damas, para tomar medidas práticas que assegurem que toda criança terá sapato no pé, frequentará a escola e assim por diante. Um dos elementos importantes desta orientação, é que permite reunir atores sociais das mais diversas tendências políticas, reconstruindo gradualmente espaços de solidariedade social. Resultaram deste trabalho o artigo Políticas Municipais para a Criança, publicado em diversas linguas pelas Nações Unidas, Urban Children in Distress: practical guidelines for local action e diversos estudos, inclusive sobre a experiência santista.

Um outro eixo de pesquisa está centrado no impacto diferenciado da globalização. No quadro do programa de pós-graduação em Economia Política da Puc, organizamos com Otávio Ianni, Renato Ortiz, Leon Pomer, e a ajuda de Paulo Rezende das Ciências Sociais, um tipo de espaço livre de discussão interdisciplinar, que se reune na primeira sexta feira de cada més, sem cachê nem ordem do dia, na melhor tradição do livre fluxo de idéias, com participação inclusive de pessoas das mais variadas instituições. Um primeiro produto é um livro, Desafios da Globalização, no prelo na editora Vozes, que analisa como a globalização está revolucionando os paradigmas do Direito, da Política, da Economia, da Segurança, das Políticas Sociais e assim por diante, em textos curtos que buscam mais as intuições que as pessoas têm da evolução dos diversos setores do que propriamente análises detalhadas. A minha própria visão é de que o conceito globalização é demasiado amplo, pois as mudanças são muito mais diversificadas. Esta visão está resumida no artigo Da globalização ao poder local: a nova hierarquia dos espaços, publicado na revista da pós-graduação em economia da Puc. 

Junto com Silvio Cacciabava e outros da equipe do Pólis, em ligação com a Cut e os seus cursos de formação, e a rede de pesquisadores da Unitrabalho que surgiu em grande parte por iniciativa da Puc, foi-se desenvolvendo uma linha de pesquisa sobre as tendências do trabalho. O ponto de partida era o chamado jobless growth que as Nações Unidas definem como um desemprego que já não resulta da crise, mas do próprio crescimento econômico. Resultaram disso, entre outros, o artigo Políticas Municipais de Emprego, publicado na revista Pólis, bem como uma série de reuniões com prefeitos, Sebrae, sindicatos e outros, buscando como poderiam ser desenvolvidas políticas ativas de emprego a partir do poder local. Basicamente, a idéia é que de a divisão técnica e vertical em setores primário, secundário e terciário tornou-se hoje demasiado ampla, e precisa ser complementada por uma análise da estratificação horizontal de subsistemas diferenciados. O magnata da soja trabalha a terra, a General Motors trabalha com máquinas, o banqueiro trabalha com informação, mas os tres lidam com uma articulação sofisticada de máquinas, computadores e outros elementos que lhes asseguram presença no setor de ponta da economia, fazem parte do mesmo universo sócio-econômico. O emprego no setor de ponta emprega no conjunto pouca gente, apesar de abrigar as experiências mais interessantes/preocupantes de reengenharia, qualidade total e assim por diante. Abaixo deste setor está a área que os americanos chamam de precarious jobs, empregos precários, onde as atividades são terceirizadas, a mão de obra intercambiável, o salários baixos, e uma série de direitos em rápido recúo. Mais abaixo, temos o setor informal, que se generaliza porque as pessoas teimam em sobreviver, ainda que formalmente não haja lugar para elas. E finalmente, uma massa cada vez mais significativa de pessoas no mundo opta pelo trabalho ilegal, que inclui desde o roubo de automóveis em São Paulo (420 carros por dia), até a produção de coca na Colômbia, o contrabando e pirataria em outros cantos e assim por diante, numa progressiva deterioração social que desarticula a sociedade por baixo, enquanto batemos palmas para a reengenharia minoritária no topo.

Aparece assim com força a desarticulação do mundo do trabalho, e o surgimento de novas contradições. Ao mesmo tempo, aparecem as imensas oportunidades: num país como o Brasil, com milhões de casas por construir, população por alimentar, infraestruturas básicas ainda não criadas, há um imenso horizonte de trabalho por fazer, mas não há emprego. O problema portanto não é falta de trabalho, mas de capacidade de organização social capaz de canalizar as mãos ociosas para as frentes de trabalho. Os municípios têm um imenso potencial para o seu desenvolvimento, e exigindo poucos recursos de investimento.

Um último eixo de pesquisa está centrado nas formas de gestão descentralizada, que inclúi desde sistemas atualizados de organização da informação municipal – a situação atual dos municípios é de forma geral trágica em termos de organização de informação gerencial – até estudos de desenvolvimento municipal comparado, formas de organização da participação da sociedade civil na gestão municipal e assim por diante. É natural que esta área tenha conhecido um desenvolvimento científico explosivo, pois o planeta está se urbanizando, e com isto a sociedade, atomizada inicialmente pelo desenvolvimento capitalista, está reconstruindo as suas dimensões sociais em outro nível. O trabalho desenvolvido nesta área está bem resumido no estudo Descentralização e Governabilidade, que tem sido publicado, xerocado e divulgado das mais diversas formas, pois constitúi uma útil sistematização das reorientações da própria forma de gestão da sociedade a partir dos espaços locais. Tenho desenvolvido trabalhos nesta linha junto com diversas administrações municipais, instituições como Ibam do Rio, Enap em Brasilia, Cepam e Seade em São Paulo, e as Escolas de Governo de diversos Estados.

Não tenho dúvidas de que estas diversas linhas de pesquisa constituem mais pontos de interrogação do que respostas. Mas estou convencido de que hoje realmente não é o tempo de certezas, e sim de questionamentos, abertura, tolerância, comprensão. É vital também a abertura de canais de comunicação entre as diversas ciências sociais, entre as diversas instituições, entre os diversos atores sociais organizados. Para dizê-lo de forma marxista, as infraestruturas estão se transformando num ritmo prodigioso. Nós nas superestruturas é que estamos ficando atrazados.

Nota bibliográfica

Os artigos mais significativos e mencionados no texto podem ser encontrados na home-pagehttp//dowbor.org, na biblioteca da Pós-Graduação da Puc, ou nos programas de pós-graduação de Economia Política e de Administração da Puc.

Ciência, vivência, consciência…
publicado em: Pesquisa e Debate, PUC-SP, São paulo, Junho de 1997