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Prefácio de um economista à obra de um educador: a pedido de Paulo Freire, o prefácio traça a ponte entre uma economia que desarticula e uma pedagogia que se quer integradora. O conceito de solidariedade social está no centro deste exercício interdisciplinar. Editora Olho d’Agua, São Paulo; Instituto Paulo Freire – fax (011) 3873-0462 ou ipf@paulofreire.org. (L. Dowbor)

 

Prefácio – Paulo Freire: À sombra desta mangueira
Editora Olho d’Água, São Paulo 1995
(In English – Pedagogy of the Heart)

Escrever um prefácio a um livro de Paulo Freire causa uma sensação estranha de redundância. No seu estilo característico, Paulo não só escreve, como pensa o seu ato de escrever, num permanente distanciamento sobre si mesmo. Resta ao prefaciador resgatar no espelho a imagem, e a imagem da imagem.
Mais estranho ainda, a incumbência recair sobre um profissional da economia, área que, provavelmente mais do que qualquer outra, foi responsável por uma construção teórica dominante onde desapareceram as precupações com a ética, com a solidariedade, com os simples sentimentos de felicidade ou de realização pessoal. A herança seca que nos ficou de Jeremy Bentham e de Stuart Mill, é o utilitarismo, o conceito um tanto cínico de que basta cada um individualmente maximizar as suas vantagens, para que socialmente se obtenha um mundo que não seria ideal, mas seria o melhor possível.

Não há dúvida que a impressionante explosão produtiva do capitalismo, durante os “trinta anos de ouro” que seguiram o fim da II Guerra Mundial, levou muita gente a acreditar que realmente mais fazem pelos pobres os capitalistas que buscam o seu lucro e desenvolvem a produção do que as esquerdas que clamam pela justiça. E a tendência ficou mais forte ainda quando ruiu a alternativa do socialismo autoritário: ficou no tabuleiro apenas uma opção, o mal necessário, o capitalismo.

Com a história reduzida a mecanismos econômicos, e os valores resumidos ao realismo das vantagens individuais, a humanidade consciente, ou com consciência, se sentiu acuada a um fatalismo pragmático, ornando o seu cotidiano com quinquilharias tecnológicas cada vez mais absurdas, enquanto tenta reconstruir o seu horizonte de utopias viáveis.

A reconstrução hoje necessária é, na realidade, muito ampla, e envolve a própria concepção da civilização que queremos construir. E ainda que os rumos, neste processo acelerado de mudança, sejam pouco previsíveis, alguns parâmetros estão se tornando bastante claros.

Um parâmetro central é dado pela explosão tecnológica. Nos últimos vinte anos, acumulamos mais conhecimentos técnicos do que durante toda a história da humanidade. O ser humano maneja potentes agrotóxicos, armas nucleares e bacteriológicas, sistemas sofisticados de manipulação genética, frotas de pesca industrial com tecnologia avançada de localização de cardumes, processos de química fina que permitem fabricar tanto medicamentos mais avançados como cocaina ou heroina em fundos de quintal. Enquanto isto, a capacidade de governo do homem evolui de maneira extremamente lenta. Assim, o resultado desta sociedade que se transforma seguindo ritmos diferentes, é que homem maneja hoje tecnologias incomparavelmente mais avançadas do que a sua maturidade política. Isto pode ser constatado através da destruição da vida nos rios e nos mares, da erosão da camada de ozônio, do aquecimento global, das chuvas ácidas, da erosão dos solos, da expansão do consumo de drogas, o uso de sistemas sofisticados de destruição à disposição de qualquer candidato a terrorista. A verdade é que o ser humano não poderá sobreviver sem formas mais avançadas de organização social, capazes de ultrapassar este caos articulado de interesses corporativos que nos acostumamos a chamar de neo-liberalismo, e que maneja técnicas de impacto universal e irreversível.

Outro parâmetro importante é a transformação profunda nos espaços da reprodução social. Grande parte da economia se internacionalizou, enquanto os instrumentos de controle social permanecem nacionais. O resultado é, por exemplo, que ninguém controla os cerca de 1 trilhão de dólares que circulam diariamente no espaço financeiro mundial. Como tampouco existe qualquer estrutura organizada de poder capaz de organizar uma compensação efetiva pelos cerca de 500 bilhões de dólares que são transferidos anualmente dos paises pobres para os paises ricos. Em outro nível, a sociedade se urbanizou, mas as decisões continuam nas mãos do governo central, como no tempo em que as nações eram constituidas por uma “Capital” cercada de populações rurais dispersas. A urbanização jogou os problemas para as cidades, que estão na linha de frente das dificuldades mas no último escalão da pirâmide do poder. O mundo político se tornou um impressionante emaranhado de instituições que têm de decidir sobre o que não conhecem e não têm poder de decisão sobre as realidades que efetivamente enfrentam. Hoje, é a própria concepção da hierarquia de organização do poder político que deve ser repensada, buscando devolver à sociedade as rédeas sobre o seu desenvolvimento.

Neste ambiente de perda de governabilidade prosperam as megaestruturas do nosso fim de século, as grandes empresas transnacionais, inicialmente concentradas no setor produtivo, hoje dominando igualmente os eixos dinâmicos dos serviços e das finanças. Cerca de 500 a 600 empresas controlam um quarto da produção mundial, dominam as áreas tecnologicamente dinâmicas, e modelam o mundo segundo as exigências da competição. Na estratégia da corporação, não há muita oportunidade de se refletir sobre os interesses sociais ou ambientais da humanidade. Com reengenharia, qualidade total, ISO-9000, robótica, telemática, benchmarking, e tantas outras palavras mágicas que prometem eficiência e eficácia, o capitalismo “lean and mean”, impelido pelas próprias regras de eficiência, deixa pouco espaço para refletir sobre valores. E é curioso ver o papa da administração empresarial norte-americana, Peter Drucker, em pleno colapso do comunismo, escrever um livro intitulado “A Sociedade Pós-Capitalista”, buscando a construção de uma comunidade “baseada no compromisso e na compaixão”.

O resultado desta modernidade que tanto nos deslumbra com suas inovações tecnológicas tem muito pouco de compromisso ou de compaixão. Enquanto 800 milhões de habitantes dos paises ricos ostentam uma renda per capita de mais de vinte mil dólares, 3,2 bilhões de habitantes do mundo sub-desenvolvido vivem com uma média de 350 dólares, menos de 30 dólares por mês. Cerca de 150 milhões de crianças hoje passam fome no mundo, cifra projetada para 180 no ano 2000, enquanto cerca de 12 milhões simplesmente morrem antes dos cinco anos. O analfabetismo atinge mais de 800 milhões de pessoas, e aumenta de cerca de 10 milhões a cada ano que passa. O planeta ganha anualmente cerca de 90 milhões de novos habitantes, sendo que cerca de 60 milhões já nascem nas áreas mais miseráveis, condenados no seu primeiro dia de vida. Não se conseguem os cinco centavos de dólar por criança que custa o iodo que impedirá o bócio, ou os dez centavos para a vitamina A que impedirá a cegueira. Cerca de um milhão de crianças ficam assim mutiladas para a vida inteira, por ano. Meio milhão de mães morrem anualmente de parto, por não ter acesso a serviços e informação médica elementar: no conjunto dos paises desenvolvidos são apenas 5 mil. Uma Africa devastada chora as suas últimas árvores, e vê os seus solos desprotegidos carregados pelos ventos e pelas chuvas torrenciais, enquanto o Ocidente que a devastou lhe recomenda cuidados ambientais. Mas temos cada dia melhores computadores, video-cassetes, e discos laser.

Multiplicar os exemplos é desnecessário. O importante é que o tempo em que a humanidade podia se apoiar em “mecanismos” espontâneos, no “laisser faire, laisser passer”, sem se definir como civilização, está se esgotando.

Uma primeira constatação óbvia, é a de que o capitalismo constitui um excelente ambiente para dinamizar a produção, mas não soube até hoje criar mecanismos eficientes de distribuição. Na realidade, a própria estrutura de poder gerada pelos privilégios e pelo enriquecimento de minorias torna a distribuição equilibrada inviável. E não é difícil prever que um planeta que se torna cada dia mais pequeno pelo progresso dos transportes e das comunicações, não pode conviver com polarizações econômicas cada vez mais dramáticas.

Por outro lado, constatamos neste fim de século que as previsões de que haveria uma certa ética dos privilégios, na medida que o enriquecimento dos ricos levaria a mais investimentos, logo a mais empregos, mais produção, e em última instância a mais prosperidade para todos, na linha do famoso “trickling down”, constitui simplesmente um erro teórico.A partir de uma certa distância entre ricos e pobres, o mercado se segmenta, e grande parte da população mundial é simplesmente marginalizada do processo central de acumulação liderado pelas empresas transnacionais. O fim da esperança do “trickling down” significa que estruturalmente o neo-liberalismo não responde aos desafios modernos, e que é necessário buscar soluções novas.

Finalmente, é o próprio núcleo da teoria do capitalismo, — da busca de maximização dos interesses individuais surgirá o melhor interesse social — que se vê simplesmente negado pelos fatos. E os complementos de políticas sociais compensatórias por parte do Estado são simplesmente insuficientes, nesta etapa de capitalismo global, em particular nos paises que carregam o ônus negativo das formas atuais de desenvolvimento, mas também nos próprios paises desenvolvidos onde as pessoas se sentem cada vez mais cansadas de viver no terror de desemprego, ou de se matar de trabalhar por objetivos cuja relação com a qualidade de vida é cada vez mais duvidosa.

Em outros termos, o que surge com força não é a busca de uma maneira mais eficaz de fazer o mesmo, mas uma redefinição da própria busca. Gradualmente, e em aproximações inseguras, somos levados a procurar a reinserção, na dinâmica da reprodução social, dos valores, da ética, dos objetivos. E isto por sua vez nos leva necessáriamente a repensar os atores sociais capazes de viabilizar as transformações, e as estratégias de sua mobilização.

Este é um pouco o caminho que leva um economista, que passa a entender que os problemas da sua área exigem soluções que pertencem a um universo mais amplo, a encontrar-se de repente na mesma plataforma de discussão de um educador, que busca também respostas no econômico, no social, no político. Porque o que se coloca na realidade neste fim de século, é a questão do nosso futuro comum.

À Sombra desta Mangueira traz, talvez mais do que outras obras de Paulo Freire, uma visão explícita do mundo, da política, dos valores. A obra “tateia”, no melhor dos sentidos, construindo pontes e caminhos entre os cheiros e sabores da infância, a educação formadora e tranformadora, as dinâmicas tecnológicas do mundo moderno, as injustiças e absurdos econômicos, a busca das alternativas políticas, e os compromissos pessoais que estas alternativas implicam, voltando à mangueira como âncora da identidade que se reencontra e se recria.

A âncora aqui é essencial, pois nos traz, ainda aturdidos pelo autêntico porre de inovações tecnológicas, ao universo dos nossos objetivos reais, como seres humanos. Hipnotizados pelos espelhinhos, percebemos crescentemente o capitalismo como gerador de escassez: enquanto aumenta o volume de brinquedos tecnológicos nas lojas, escasseam o rio limpo para nadar ou pescar, o quintal com as suas árvores, o ar limpo, água limpa, a rua para brincar ou passear, a fruta comida sem medo de química, o tempo disponível, os espaços de socialização informal. O capitalismo precisa substituir felicidades gratuitas por felicidades que tenham de ser compradas.

A alternativa não é ser a favor ou contra a tecnologia, como o quer Milton Friedmann, que declara que todos os que se preocupam com meio ambiente e com o social têm uma coisa em comum: são contra o progresso. Qualquer pessoa de bom senso entende que é absurdo passarmos horas da nossa vida no trânsito de São Paulo, por exemplo, respirando ar poluido, um carro atrás do outro, gastando petróleo, peças, asfalto, saúde e tempo, com uma média horária de menos de 15 quilómetros por hora, o que é mais lento do que as carroças do início do século. O carro é ótimo, mas quando inserido numa visão tecnológica direcionada para a qualidade de vida, com prioridade para o transporte coletivo confortável e barato, ruas arborizadas, reservando o transporte individual para trajetos médios de fins de semana ou grandes compras.

A realidade é que o capitalismo não nos traz apenas o produto, traz-nos formas de organização social que destrói a nossa capacidade de utilizá-lo de forma adequada. Assistimos impotentes à bestificação de crianças e adultos frente à televisão, ao fato de passarmos cada vez mais tempo trabalhando intensamente para comprar mais coisas destinadas a economizar o nosso tempo. Vemos simultâneamente o impressionante avanço do potencial disponível, e somos incapazes de transformar este potencial no que poderíamos chamar simplesmente de uma vida melhor.

A vida melhor passa sim pelo acesso a coisas melhores, mas passa também, e fundamentalmente, pelo relacionamento humano que se gera. Não há muita dificuldade em se inverter a frase do Sartre, e ver que a felicidade está nos outros. Grande parte das divisões políticas mais ou menos artificiais passam por esta crença, geralmente não explícitada, de que o homem é naturalmente bom, ou naturalmente mau. Hoje se sabe a que ponto contextos que jogam um homem contra outro geram inferno, enquanto contextos que geram solidariedade constroem ambientes onde as pessoas se sentem realizadas.

O reordenamento dos espaços da reprodução social tem tudo a ver com este processo. Na expressão feliz de Milton Santos, “o que globaliza separa; é o local que permite a união”.Este século e meio de capitalismo desarticulou a comunidade, gerou uma autêntica sociedade anônima, que só se relaciona através de sistemas funcionais e de terminais eletrônicos. Como reconstruir a solidariedade humana, objetivo radical no raciocínio de Paulo Freire?

Todos estamos acostumados com a pancada na consciência quando passamos por crianças de rua. E já criamos as nossas defesas, de uma forma ou outra. Há tempos encontrei uma senhora idosa pedindo esmola, e me deparei espantado com a semelhança que tinha com a minha mãe. O choque foi profundo, mas pouco depois me espantei comigo mesmo: o ser humano anônimo não machuca? Na realidade, com a sociedade global, grandes distâncias e grandes números, a solidariedade deixou de ser assunto de coração, de sentimento que se gera naturalmente frente à pessoa conhecida, e passou para o intelecto, a razão que se satisfaz com racionalizações. O que globaliza separa, e as soluções passam por uma rearticulação profunda do tecido social.

No raciocínio de Paulo Freire, a racionalidade reclama racionalmente o direito às suas raizes emocionais. É a volta à sombra da mangueira, ao ser humano completo. E com os cheiros e sabores da mangueira, um conceito muito mais amplo do que esquerda e direita, e profundamente radical: o da solidariedade humana.

 

Ladislau Dowbor, 59, é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e do Instituto Metodista de Ensino Superior, autor de “O Que é Poder Local?“, Brasiliense 1994, e de numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social.

Prefácio ao Livro de Paulo Freire, à sombra desta mangueira,
Editora Olho d’Água, São Paulo 1995